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Cadê a certeza que estava aqui? 
Cleci Maraschin*
 
     Quando a Profª. Dirce e a Profª. Maria do Carmo me convidaram para estar aqui com vocês hoje elas expressaram algumas questões que os inquietavam como grupo de professores: 
O que, por que e como ensino a meus alunos?      Imediatamente me perguntei: por que essas questões inquietam, desassossegam os professores? São questões sobre o conhecimento, eu diria questões epistemológicas.  
Será que se viajássemos em uma nave do tempo retornando dez anos atrás os professores teriam essas mesmas dúvidas?       Os professores que nos formaram para sermos professores poderiam prever que seriam esses os problemas que enfrentaríamos na docência dos anos 90?      E aqui encontro um primeiro desafio de qualquer educação: Podemos saber com certeza o que, por que e como devemos ensinar para nossos alunos de hoje para que daqui a dez ou quinze anos possam viver como cidadãos conscientes, críticos, capazes de enfrentar os novos desafios de seu tempo? 
É uma questão que por ora deixo em aberto para rediscutí-la mais adiante.      Além desses pensamentos, o convite das professores, também me fez lembrar de outro convite recebido há um ano: Uma escola particular, com bastante tempo de trabalho educacional em uma cidade no interior do Estado, solicitou que eu falasse na questão da "motivação"; para o trabalho de ser professor.      Vou contar um pouco para vocês da discussão com esses outros professores, pois penso que esses pedidos podem estar relacionados. Acredito que esses pedidos "falam" dos desafios e das dificuldades de ser professor nesse final de século e de milênio. Na ocasião do convite lembro que me perguntei porque os professores estariam desmotivados em seu trabalho? Que motivos estariam por trás desse des-motivo? 

Chamei minha fala para esses professores de:  

ALGUMAS IDÉIAS SOBRE O (DES)ENCANTAMENTO DE SER PROFESSOR       Pensei em lhes falar de algo que considerava mais profundo que a motivação. Já que a motivação geralmente se relaciona a problemas externos, que até podemos identificar: como a dupla, ou tripla, jornada de trabalho das professoras e professores, os baixos salários,- o reconhecimento social do trabalho do professor, etc.      Não resta dúvida que todos estes fatores influenciam na nossa vontade de trabalhar, e precisam ser discutidos e, sem dúvida, melhorados. Mas, o que sentia, conversando com meus colegas na universidade e com professores de diferentes escolas, de primeiro e segundo graus, era algo mais profundo que uma falta de motivação. Chamei este sentimento de desencantamento: algo parecido como quando descobrimos que Papai Noel não existe.      O desencanto, pode ser vivido como um tipo de perda da magia, perda do gosto e até mesmo, perda do sentido. O exemplo do Papai Noel pode parecer um pouco infantil, mas ele tem duplo propósito. O primeiro deles, é expressar que todos nós, em alguma medida, já passamos por momentos de desencantamento e, o segundo, é que o processo de desencantamento faz parte do próprio viver, do crescimento, não é estranho a vida. Cada um de vocês pode pensar em vários desencantamentos acontecidos durante sua experiência de vida. Apesar de fazer parte da vida, a permanência neste estado de desencantamento, pode ser vivida como sofrimento.      O desencantamento com o trabalho de ser professor é muito mais sério que um problema motivacional. Repercute internamente, colocando em questão a própria validade de ser professor. Não é resultante, apenas, do estabelecimento de uma relação capitalista de custo benefício, ou seja, não pode ser entendido como um mero cálculo entre esforço empreendido e retorno financeiro, mas, mais que isso, questiona o próprio sentido da atividade de ser professor ou professora. 
Chamei o desencantamento como uma espécie de sintoma social. 

Por que sintoma?      Se falei antes que o desencantamento faz parte da vida, o sentido de sintoma, aqui, não é tomado por sinônimo de doença, a não ser que nos paralise, que impossibilite o pensamento. Falo do sintoma justamente como um marcador.       O desencantamento esta marcando, indicando algum problema. Ele está no lugar de algo que ainda é difícil compreendermos, mas que precisa ser falado, pensado, senão nosso trabalho se tornará mais arduo, a cada dia. 

Por que social?      Porque acho que o problema é abrangente e não causado por diferenças individuais ou de filosofia institucional, por exemplo.      Mas, poderiam vocês perguntar, que relação teria o desencantamento com as questões que hoje nos colocamos como dúvidas em relação ao nosso trabalho de professores e de professoras?      Gostaria de propor que as questões que vocês se dedicaram a pensar nesse seminário podem estar relacionadas com o desencantamento, elas podem ser geradoras desse sintoma se não conseguirmos encontrar respostas convincentes para nós próprios.      Eu tenho algumas hipóteses do porque estamos imersos, alguns com maior, ou menor profundidade, nessas questões epistemológicas. Pensei em lhes falar de algumas das minhas hipóteses, mas também ouvir as suas. Acho que conhecer as razões pode ser um passo importante, para pensarmos em estratégias ativas de superação desses desafios. Aqui vou trazer duas delas. 

1. O questionamento das certezas/ a quebra das certezas.      A primeira idéia é que essa "crise epistemológica" afeta não somente os professores. Os cientistas, os filósofos, os pensadores estão cada vez mais questionando seus princípios. A idéia de que a razão e, principalmente, a razão científica, resolveria todos os problemas humanos, está cada vez mais em suspensão.      São inegáveis os avanços tecnológicos e as possibilidades de novas formas de viver e pensar que a tecnologia pode nos oferecer. Como também é inegável que cada vez mais somos capazes de destruir o mundo, de várias formas, e em poucos segundos. Em meio aos computadores, ao telefone celular, aos novos exames e tratamentos médicos, a Internet, existe o incremento da violência, do stress, o aparecimento de novos vírus, dos sectarismos. 

Mas por que digo que isso pode ser uma das razões dessa crise epistemológica que acomete, a nós, professores?      Se a ciência relativiza o poder do conhecimento, e pensa-se em verdades, no plural, e não de uma única, então as pessoas que falam em nome da razão e do conhecimento também podem ser questionadas. Os professores falham (descobriram os alunos e descobrimos nós mesmos). Ninguém mais tem a tranquila segurança de que aquilo que sabe é a verdade. Essa consciência é visível na forma como os alunos questionam o conhecimento. As idéias dos mestres são passíveis de discussão. 

2. A velocidade com que as coisas aparecem e desaparecem.      A segunda idéia que poderia incrementar a crise de paradigmas que falamos é grandemente reforçada pela sociedade de consumo, em que nos transformamos. As inúmeras possibilidades de experimentar, no âmbito do consumo, vários objetos e descartá-los, tornou-se um modo de viver, que impregna outros setores de nossas vidas. Parece proibido pensar na duração, na permanência, na constância. Chamamos de "atrasadas" as pessoas que não seguem as mudanças frenéticas impostas por essa mesma sociedade de consumo. Até mesmo a fidelidade parece algo fora de moda. Mediante o primeiro problema, "parte-se para outra", como se a velocidade fosse a garantia da felicidade.       E aqui quero diferenciar movimento de velocidade. A vida é constante movimento. O equilíbrio e a compensação das diferencas, é o movimento. Piaget nos dá um exemplo bastante interessante, que é o andar de bicicleta. Como garantimos o equilíbrio ao andar de bicicleta? Só nos movimentando! Assim é a vida, e o nosso psiquismo. Para viver precisamos trocar, e a vida é a permanência do movimento, das trocas. O mesmo acontece no plano do conhecimento.Conservamos e mudamos nossas idéias porque constantemente as confrontamos com outras. Mas aqui o que se trata é da velocidade. 

Mas o que tem a velocidade a ver com a educação?      Estudar, aprender, é um pouco o contrário da velocidade. E aqui nós professores nos sentimos freqüentemente "remando contra a maré". Poder suportar confrontar-se várias vezes com a ignorância, implica o esforço, a constância. É necessário fixar pontos de partida, postulados. 

Como descubro, por exemplo, de olhos vendados, a forma de um objeto?       Se o giro infinitamente não consigo construir uma imagem de suas dimensões, seus lados, seus ângulos. Tenho que conservar um ponto de partida.  
Além disso, aprender implica conflitos: todos sabemos da dificuldade de abandonar idéias que não mais funcionam, e que já se mostraram falsas.  
Já ouvi várias vezes dos alunos um sentimento angustiado de que as discussões, os debates são perda de tempo. "É só nos dizer como e pronto!" 

3. Competição com as novas tecnologias da informação?      Uma queixa muito comum entre nós professores é a idéia de que as novas tecnologias da informação seriam em grande medida responsáveis por nossa famosa crise paradigmática. As aulas, as informações escolares se tornam "chatas, monótonas e não sedutoras". Não temos, nós professores, as mesmas armas tecnológicas da mídia. Seria uma competição muito desigual. 

4. Construindo um caminho  

Poderíamos então pensar: o que fazer diante desse quadro?      Penso que para pensarmos em novas significações de nossa atividade docente necessitamos estabelecer algumas diferenciações.      Uma primeira diferenciação importante é entre a informação e o conhecimento. A informação está relacionada com a marca significante. São os dados, os fatos. São constituídas de unidades designadas sob a forma de bits. A informação não tem em si uma estrutura, é potencial. Já o conhecimento é a própria capacidade de integração, de combinação das informações. O conhecimento é o organizador das informações.  
Edgar Morin nos diz: 
 

     "... damo-nos conta de que o pensamento mutilante, isto é, o pensamento que se engana não porque não tem informação suficiente, mas porque não é capaz de ordenar as informações e os saberes é um pensamento que conduz a ações mutilantes" (p. 14).
      O papel da escola, do professor não seria tanto o de divulgar as informações, já que para isso dispomos de outros meios com eficiência superior. Mas sim o de possibilitar o conhecimento. A escola da informação deve dar lugar a escola do conhecimento sob pena de sucumbir.       Não existiria a necessidade de uma competição com os novos recursos da informação, mas sim a descoberta, a construção de modos criativos de conhecimento usando as múltiplas e variadas modalidades de informação já disponíveis.      A questão seguinte é a de saber quais instrumentos dispomos para organizar as informações. Com o que contamos para construir modos criativos de conhecimento. Se tomarmos a hipótese teórica de Piaget, o primeiro organizador é a ação, é a própria atividade.      Desde o início da vida do bebê sua atividade sensório-motora organiza o espaço dos objetos, organiza e dá sentido às diversas estimulações provenientes do meio. Assim, desde lá sabemos que uma implicação ativa dos estudantes propicia uma melhor aprendizagem. A vontade de saber, a curiosidade, fazem parte constitutiva do humano.      Segundo Piaget, não nascemos com faculdades mentais, com qualidades e conteúdos específicos, mas com a capacidade de aprender e de descentrar. E essa capacidade deve ser exercitada por nós professores. A idéia de que nosso trabalho tenha essa dimensão lúdica, não só para os alunos, mas para nós mesmos. O principal obstáculo aos professores se tornarem aprendizes e a sua inibição com relação a aprendizagem.  

Mas gostaria de falar de outros instrumentos que poderíamos chamar de ferramentas do pensamento. Quero discutir o papel da tecnologia como um instrumento do conhecimento.       Primeiro precisamos repensar o próprio conceito de tecnologia. A idéia mais corrente é conceituar a tecnologia por oposição a tudo aquilo que possa estar contido numa suposta natureza humana. Assim, dificilmente pensamos que a roupa que vestimos, que o lápis que utilizamos para deixar marcas no papel sejam tecnologias. Eles habitam nosso cotidiano de tal forma que já fazem parte de nossa "natureza humana".  
Mas as tecnologias podem ser pensadas como "tecnologias da inteligência". (Pierre Levy, 1993).       As tecnologias se articulam com nosso sistema cognitivo de tal forma que não conseguimos pensar sem seu auxílio. Para o autor as tecnologias transformam os modos de conhecer principalmente por duas razões. A primeira delas é por mudarem os agenciamentos interativos entre as pessoas. Aqui podemos pensar na oralidade e na escrita. Se as formas de interagir de determinada cultura são preponderantemente orais elas tornam necessários agenciamentos espaço-temporais próximos.      A escrita possibilita que as informações possam circular com uma distância espaço-temporal.  
A outra razão é que as tecnologias fornecem metáforas para pensar. Por exemplo, o conceito de máquina foi importante para alguns pesquisadores em psicologia. O próprio Freud construiu um modelo de aparelho psíquico com várias analogias ao funcionamento de uma máquina (a energia da libido, a repressão, etc.). (As engrenagens e os dentes).      Poderíamos pensar em como as tecnologias orais, escrita e informática contribuem para transformar nossos modos de pensar?      Retornando a questão em suspenso: O que, por que e como ensinar é sempre uma aposta. Mas uma aposta baseada em uma parcela individual, que significa a coragem de revisar o nosso próprio sentido de trabalho, o quanto aprendemos o conhecimento que ensinamos; mas é tambem coletiva: acho que precisamos reinventar a própria escola: da escola da informação à escola do conhecimento.      Aprender a re-encantar o conhecimento, como algo em movimento, em transformação, que pode e deve ser questionado.      Cada vez me convenço mais, que para ser professor não é necessário amar os alunos, e isto até pode parecer uma heresia. Mas é necessário sim, amar o conhecimento, desassossegar-se com as dúvidas dos alunos e com as nossas próprias, desconfiar das coisas prontas, das respostas fáceis. Apaixonarmo-nos por nosso objeto de trabalho que é o conhecimento. Explorar a vontade de saber, processo e não produto, coletivo, inacabado e histórico. 
 
BIBLIOGRAFIA 

KHEL, Maria Rita. Imaginar e pensar. In NOVAES, Adauto. Rede imaginária: Televisão e democracia. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. 

LEVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. O futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. 

MORIN, Edgar. O problema epistemológico da complexidade. Lisboa: Publicações Europa-America, s/d. 

PAIN, Sara. A arte e a construção do conhecimento. Revista do GEEMPA.  

PAPERT, Seymour. A máquina das crianças. Repensando a escola na era da informática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. 

* Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.