Introdução
A avaliação realizada pelo Lastran
sobre o impacto gerado no Rio Grande do Sul pelo Programa Estadual de Concessões
Rodoviárias à iniciativa privada visou avaliar a relação custo-benefício para a
sociedade gaúcha em decorrência da implantação desse programa. Para isso buscou-se
resposta a três perguntas, cada uma das quais foi abordada através de metodologia
específica:
Perguntas básicas
1. A atual tarifa cobrada pelos postos de
pedágio coincide com o que o usuário está disposto a pagar?
2. A melhoria das rodovias compensa a tarifa
cobrada?
3. O custo dos produtos de diferentes setores
produtivos gaúchos será alterado em função da cobrança de Pedágio?
Para buscar respostas consistentes foi necessário
contextualizar aspectos econômicos e sociais, criando um referencial sobre a reforma do
Estado, formas de financiamento à infra-estrutura, experiências nacionais e
internacionais.
Assim, foi feito um aprofundado trabalho de
conceituação histórica e jurídica sobre as formas de pedágio, com levantamento de
exemplos e características encontradas em vários países, em diferentes momentos
históricos e conjunturas econômicas. Simultaneamente foram especificadas as formas como
a parceria Estado/empresas foi estabelecida em cada um dos exemplos encontrados.
Foi analisada a reforma do Estado, em foco nas
discussões econômico-sociais desde a década de 80, relativamente às especificidades do
Brasil e do Rio Grande do Sul, à pauta da comunidade das nações e dos organismos de
financiamento internacional. A capacidade do Estado de manter as rodovias em níveis
compatíveis com as necessidades do setor produtivo também foi analisada à luz
histórica do financiamento do setor rodoviário, ficando caracterizado o esgotamento de
um modelo (estatal-desenvolvimentista) e a necessidade de obtenção de recursos
complementares. Esta situação configura as condições em que ocorreu o Programa de
Concessões das rodovias no Rio Grande do Sul, cujo pressuposto foi a admissão de
parcerias público-privadas para o financiamento da infra-estrutura rodoviária.
O estudo permite que sejam feitas simulações (do
comportamento dos usuários, dos custos operacionais dos veículos de carga e do impacto
do pedágio sobre o custo dos produtos), com alterações de diferentes componentes da
equação (maior custo, menor custo, rota x, rota y, caminhão de tipo x, y ou z, produto
A, B ou C etc.), para que sejam observados os efeitos de possíveis alterações no
conjunto do modelo. Isto vale tanto para as opções de cenário que foram simuladas pela
equipe do Lastran como para outras, para opções futuras, que sejam de interesse.
Caracteriza-se, portanto, como um ferramenta confiável de análise técnica de uma
situação que é complexa e dinâmica, composta de fatores igualmente complexos.
Saliente-se que há variáveis de natureza política nessa situação, as quais não são
o foco do trabalho.
A
reforma do Estado e a infra-estrutura
A reforma do Estado encontra-se em lugar central
dos debates políticos e econômicos desde a década de 80, tendo sido objeto de numerosos
estudos no país e no exterior.
O professor Aldomar A. Rücker, da Universidade de
São Paulo USP, em sua tese de doutoramento sobre desenvolvimento "A
reforma do Estado e a reestruturação da infra-estrutura" , identifica a
polaridade do início dos anos 80 entre o modelo neoliberal padrão (não há lugar para o
Estado) e a vertente que o vem substituindo, que até incorpora alguns aspectos, como a
desestatização, mas que se orienta para o mercado com base na social-democracia de
caráter pragmático.
Ele situa histórica e economicamente o processo de
desenvolvimento na América Latina, e no Brasil em particular, a partir dos conceitos da
CEPAL, que buscavam a superação do subdesenvolvimento via industrialização induzida
pelo Estado. Nessa fase, até o final da década de 70, o Estado tem presença ativa como
produtor de insumos, fornecedor de infra-estrutura, financiador dos investimentos
nacionais e articulador entre capitais nacionais e internacionais. A crise dos anos 80
a chamada década perdida conduz ao esgotamento do modelo de substituição
de importações. O impacto das crises externas sobre as contas do setor público leva ao
questionamento de seu papel dos pontos de vista institucional, comercial e financeiro.
Reduzem se os gastos correntes do Estado, bem como os investimentos, sem distingüir os
setores afetados. O resultado é a degradação progressiva da infraestrutura e a
deterioração da qualidade dos serviços públicos.
Mesmo reconhecendo avanços na Constituição de
1988, o professor Aldomar observa a debilidade de sua filosofia econômica, que mantém um
papel excessivamente intervencionista para o Estado. Ao ponderar sobre o Programa Nacional
de Desestatização e a nova Lei de Concessões dos serviços públicos, observa que o
conceito de privatização utilizado indiscriminadamente não explica todo o conjunto de
procedimentos da política de desestatização. Existem atualmente, no mundo, mais de 50
tipos de privatização, para cumprir metas distintas em ampla variedade de
circunstâncias, envolvendo, portanto, uma ou várias iniciativas políticas.
O
Programa Nacional de Desestatização
Os objetivos do Programa Nacional de
Desestatização (Lei Federal nº 9.491, de 09/9/97), na busca da modernização da
economia brasileira, são:
FPermitir a mudança do papel do Estado,
concentrando suas ações e recursos, sabidamente escassos, nas áreas sociais
FReduzir a dívida pública, auxiliando no ajuste
fiscal
FPermitir a retomada dos investimentos nas empresas
e atividades desestatizadas com recursos de seus novos proprietários
FEstimular a competição no mercado, contribuindo
para o aumento da qualidade dos bens e serviços ofertados à população
FFortalecer o mercado acionário, com maior
pulverização do capital.
A partir do governo Fernando Henrique Cardoso, o
Programa Nacional de Desestatização passa a ser parte integrante do programa de governo,
iniciando-se uma nova fase, em que os serviços públicos vêm sendo transferidos ao setor
privado, a agenda incluindo concessões na área de transportes e telecomunicações. O
objetivo é a melhoria da qualidade dos serviços prestados à sociedade, através do
aumento dos investimentos a serem feitos pelos novos controladores.
O documento da nova fase de privatização
explicita:
"O Programa Nacional de Desestatização
deverá contribuir para superar o gargalo para o crescimento econômico existente nos
serviços de infra-estrutura, notadamente em energia elétrica, transportes e
telecomunicações (...)
A infra-estrutura de baixa qualidade eleva os
custos primários de produção, distribuição e armazenamento, elevando o chamado Custo
Brasil (...)
Ao conceder os serviços públicos ao setor
privado, o Estado poderá dedicar-se mais adequada e exclusivamente às atividades de
regulação e fiscalização desses serviços (...)"
A lei federal nº 8987/95 de Concessões de
Serviços Públicos, com base no artigo 175 da Constituição, cria pela primeira vez um
conjunto de regras uniformes e organizadas para a concessão ou permissão para
prestação de serviços públicos. Estabelece que, através de contrato, os capitais
privados prestarão esses serviços em nome do Estado, explorando bens que, ao final de um
período, reverterão ao poder público. Cria-se assim uma alternativa concreta aos
investimentos estatais, que desde o início da década de 80 são insuficientes.
Estabelece que a Concessão será feita
"mediante licitação, na modalidade de concorrência, a pessoa jurídica ou
consórcio de empresas que demonstre capacidade para sua realização, por sua conta e
risco ..."
A
reforma no Rio Grande do Sul
O Rio Grande do Sul possui, desde 1994, a Lei
Vilela ou Lei Estadual de Concessões (nº 10.086/94) sobre o regime de concessão e
permissão de prestação de serviços públicos. Também foi pioneiro na aprovação do
Programa de Reforma do Estado (1995), que envolveu, entre outras iniciativas, a
alteração do caráter da Caixa Econômica Estadual, e a criação de um Fundo de
Promoção da Cidadania destinado a empreendimentos em educação, saúde e saneamento,
segurança pública e infra-estrutura.
O Plano Plurianual 1996-99 (governo Britto) já
trazia como assertiva básica a incapacidade de os fundos públicos garantirem, sozinhos,
a demanda por serviços de infra-estrutura. Ao mesmo tempo, reconhecia a deterioração do
sistema viário e de outros segmentos da infra-estrutura, o que poderia vir a comprometer
a competitividade gaúcha na medida em que entendia que a provisão de infra-estrutura e
desenvolvimento são processos indissociáveis (sistemas viário, portuário, de energia
elétrica e telecomunicações).
Assim, o Rio Grande do Sul optou por promover a
parceria com o setor privado para aumentar as fontes de investimentos no setor
rodoviário.
[topo
da página]
A queda
no financiamento tradicional do setor rodoviário
No Brasil, tradicionalmente o financiamento da
infra-estrutura rodoviária se deu através dos recursos públicos, principalmente
originários de impostos vinculados ou de repasses do Tesouro, previstos nos orçamentos
anuais dos Estados e da União. Entre os mecanismos implantados para fixar a origem de
recursos merece destaque o Fundo Rodoviário Nacional (FRN), principal fonte de
financiamento do setor durante o período de sua existência. A mesma lei que o criou (Lei
Joppert ou decreto-lei 8.463) reorganizou o DNER, responsável pala execução da
política rodoviária federal e pela aplicação dos 40% dos recursos do FRN destinados à
União. Os Estados que ficavam com 60% dos recursos foram instados a criar
seus Departamentos de Estradas de Rodagem (DER) ou Departamentos Autônomos de Estradas de
Rodagem (DAER). Foi esse modelo que viabilizou uma expansão substancial da rede
rodoviária do país.
Dessa forma, de 1948 a 1988 os recursos do Fundo
Rodoviário Nacional (oriundos do imposto sobre combustíveis e lubrificantes) permitiram
ao governo federal financiar a construção de rodovias pelos Estados, provocando uma
expansão da malha pavimentada da ordem de 12% anuais no período 1956-80.
Em 1975 o panorama começou a ser alterado, com a
transferência gradativa de parcelas dos recursos gerados pelo imposto único sobre
combustíveis, que cabiam à União, para o Fundo Nacional de Desenvolvimento (FND),
chegando a 50% em 1979. Em 1982 esse processo foi ampliado, com a transferência de 100%
da parcela do FRN da União ao FND. A partir desse ano a administração do setor
rodoviário passou a contar apenas com recursos dos orçamentos anuais, insuficientes para
atender à infra-estrutura, e financiamentos de bancos de desenvolvimento nacionais e
internacionais.
A participação no PIB do financiamento
rodoviário (segundo V.L.Magalhães Concessões de Rodovias, 1988) caiu de
1,51% em 1970 para 0,549% em 1982, chegando a 0,323% em 1988. A Constituição de 1988
sepultou definitivamente o sistema de financiamento de rodovias ao extingüir a
vinculação de recursos tributários, com a criação de um caixa único do Estado, como
adotado pela maioria dos países.
Desde então, vem sendo gradativo e sistemático o
processo de deterioração das condições rodoviárias, agravado pela precariedade de
manutenção e conservação da rede e pelo crescimento explosivo do tráfego de
veículos.
A
conseqüente deterioração das rodovias
O resultado dessa carência de recursos pode ser
visto pelo estado das rodovias federais em 1995.
É oportuno registrar que estudos e relatórios de
órgãos internacionais creditam ao mau estado das estradas um prejuízo de cerca de 2% do
PIB dos países latino-americanos. Para cada dólar poupado em manutenção no momento
adequado, há um acréscimo de três dólares com obras de reabilitação e de até outros
três para os usuários (custos de operação adicionais): é o que S. H. Lee, da
Universidade Federal de Santa Catarina, chama de antieconomia.
Muitos são os fatores que afetam a longevidade de
uma rodovia pavimentada: a espessura das diversas camadas, a qualidade dos materiais
utilizados, as características do sub-leito, as condições de manutenção e do meio
ambiente e, sobretudo, o tráfego de veículos pesados.
As rodovias, principalmente por ação do tráfego
pesado, passam por um ciclo de contínua deterioração. Se não houver manutenção
adequada, após 10 a 15 anos a rodovia pavimentada revestida com concreto asfáltico chega
a um estado de deterioração acelerada, que obriga a reconstruir totalmente o pavimento.
Os transportadores de carga são tentados a
trafegar sobrecarregados porque assim podem aumentar sua produtividade. As atuais
condições facilitam: não há controle sistemático de peso por eixo, é possível
aumentar a pressão dos pneus (radiais) e ampliar a capacidade de carga, sendo ainda
cabível repassar maiores custos operacionais. Pesquisas oficiais de âmbito nacional
revelam que a sobrecarga chega a 30% para os eixos pesados.
Ao mesmo tempo, as pesquisas indicam como
consequência imediata dessa destruição dos dos pavimentos um aumento de até 50% no
consumo de combustíveis, 30% no desgaste da frota e 100% no tempo de percurso.
Os
efeitos sobre os veículos
Ao mesmo tempo, as pesquisas indicam como
conseqüência, imediata dessa destruição dos pavimentos, um aumento de até 58% no
consumo de combustíveis, 30% no desgaste da frota e 100% no tempo de percurso. Donde o
excesso de carga é responsável por elevar o custo de manutenção das rodovias (se e
quando ela ocorre) e dos veículos, e pelo maior risco de acidentes.
A viabilização dos investimentos em
infra-estrutura constitui hoje um dos grandes desafios com que se defronta a grande
maioria dos países em desenvolvimento, estendendo-se também a alguns desenvolvidos.
Particularmente, o investimento em infra-estrutura rodoviária tem reflexos consideráveis
na economia. Estudos realizados nos Estados Unidos chegaram à conclusão de que para cada
1% de aumento no investimento rodoviário (infra-estrutura) há um aumento de até 0,127%
no PIB dos estados. E um estudo internacional de 1994 estima que para cada 1% de aumento
da capacidade da infra-estrutura há um aumento de até 1% no PNB.
[topo da página]
O
pedágio como fonte de financiamento
A instituição do pedágio como fonte de
financiamento remonta a priscas eras. Há registros sobre cobrança dos viajantes nas
estradas entre Síria e Babilônia há 4 mil anos. Também os incas construíram estradas
convergentes para Cuzco, entre a atual Colômbia e o Sul do Chile (através da Cordilheira
dos Andes), e cobravam pedágio.
No Império Romano a denominação era Portorium
e, na Idade Média, o pedágio era prática comum, sendo cobrado pelos senhores feudais
nas estradas de seus domínios. Na França chamava-se péage origem do termo
em português. Na Inglaterra a cobrança era intensa até o século XVIII, pela Coroa
Britânica, que conservava as estradas.
No Brasil o pedágio foi formalmente instituído na
Constituição de 1946 como taxa (ou tributo), fato que gerou diversos pareceres,
polêmicas e argüições quando da criação do selo-pedágio. Recentemente o pedágio
passou a ser considerado um preço público, o que justifica sua cobrança por
concessionárias privadas e elimina as discussões sobre bitributação e
inconstitucionalidade.
Os principais impostos e taxas cobrados dos
usuários de rodovias atualmente, em vários países, são:
FImpostos sobre combustíveis e lubrificantes,
baseados no preço médio do diesel e da gasolina e na capacidade de pagamento dos
usuários. Taxas anuais usualmente complementam esse imposto, em especial no caso de
caminhões pesados.
FTaxa de licenciamento de veículos, anual, para
cada veículo específico, independente da utilização de rodovias.
FImposto peso-distância, que diferencia o impacto
de carros e caminhões. Nova Zelândia e Estados Unidos, com algumas variações, o
aplicam sobre veículos a diesel. Há dificuldades porque, embora os veículos pesados
consumam de três a cinco vezes mais combustível por quilômetro do que os leves, o custo
do desgaste do pavimento gerado pelos pesados representa uma proporção muito maior.
FPedágio, que se configura a maneira mais adequada
para lidar com uma realidade: as rodovias são necessárias para o desenvolvimento
econômico e as capacidades financeira e gerencial do setor público são limitadas.
Diversos países praticam variadas formas de
cobrança do pedágio. Os critérios aplicados consideram número de eixos, altura do
capô, categoria do veículo e tamanho, de forma individual ou combinada. De fato, os
sistemas de cobrança que levam em conta o número de eixos reduzem o subsídio dos
veículos leves aos pesados.
A cobrança do pedágio pode ser manual, mecânica
ou eletrônica esta última a maneira mais moderna, que vem sendo implantada
conjuntamente com a manual em alguns casos no Brasil e também na Argentina, Estados
Unidos e Inglaterra.
A forma de cobrança também varia, de uma taxa
fixa por categoria de veículo, a uma taxa variável em função da categoria e da
distância percorrida.
Em 1994, segundo pesquisa realizada pela IBTTA
International Bridge Tunnel and Turnpike Association, mais de 122 bilhões de
dólares de investimentos em rodovias estavam planejadas no mundo, com a utilização de
pedágios como fonte de recursos.
Prejetos envolvendo pedágios no mundo(1994)
É importante notar que a concepção original do
pedágio para veículos está associada ao conceito de congestionamento, como uma taxa
para regular o tráfego, que, portanto, deveria ser maior nas horas de pico do fluxo,
quando a demanda aumenta. Essa concepção se mantém nos países desenvolvidos, com a
criação de vias alternativas, onde se oferece ao usuário a possibilidade de pagar o
pedágio em outra rota para evitar vias saturadas. É um conceito diferente e oposto ao
que vem sendo atribuído ao termo no Brasil.
O enfoque que vem sendo dado ao pedágio entre nós
e em outros países, é: paga quem utiliza a infra-estrutura rodoviária.
[topo da página]
A
parceria público-privado
Estão surgindo, no cenário internacional, novas
maneiras para organizar e gerenciar a infra-estrutura de transportes, seja ela de
propriedade pública, privada ou mista.
Cinde-se a propriedade da rodovia de sua
operação, a concessão de sua operação e/ou a operação de sua infra-estrutura.
Atualmente as modalidades vão desde a posse e/ou operação apenas públicas às
puramente privadas.
Há numerosos desenhos sob os quais os diversos
países vêm se organizando para otimizar a concessão de rodovias:
FORMAS INTERNACIONAIS DE PARCERIA PÚBLICO-PRIVADO
- Régie Intereddée
- Affermage
- DBFOT
- BOT (Build - Operate - Transfer )
- BTO
- BOO
- BBO
- LDO ( Lease Develop Operate )
- CAO
Essas diferentes formas envolvem desde a concessão
total, ou seja, o bem não retorna à propriedade do Estado, o chamdo BBO (Buy, Own,
Operate), ao contrato para atuar em nome do Poder Público, sendo por ele remunerado,
sem cobrança de tarifas (Régie Interessée). No Brasil, quase todas as
concessões se enquadram no sistema LDO (Lease, Develop, Operate), onde o Estado
concede um ativo existente ao setor privado, exige a realização de melhorias e
investimentos, em geral de recuperação, e firma um contrato de operação privada. Em
alguns casos o sistema se mistura com o BOT (Build, Operate, Transfer), ficando o
concessionário com a responsabilidade de construir trechos novos ou ampliar os
existentes.
Pontos
comuns às concessões
O presente trabalho avaliou modelos de parceria,
tipos de concessão (gratuitas, subsidiadas e onerosas) e agências reguladoras
(dependentes ou não dos governos), e aprofundou a análise do processo de concessões no
México, na Argentina, na França, nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Itália e no
Chile. A partir dessas análises, estabeleceu alguns pontos comuns entre os sistemas de
concessões privadas de rodovias:
1 O sistema de concessões foi imposto pela
necessidade econômica de maiores investimentos na infra-estrutura (manutenção e
ampliação da malha rodoviária).
2 Agências regulamentadoras independentes
foram criadas para desenvolver todas as atividades ligadas à concessão privada de
rodovias.
3 Antes da efetiva cobrança de pedágio
deve ser realizada alguma melhoria inicial na rodovia.
4 O objetivo social da empresa vencedora da
licitação para operar a rodovia deve limitar-se ao objeto da concessão.
5 O período da concessão varia de 15 até
75 anos.
6 Mercosul, Nafta e União Européia
favorecem a concessão de rodovias ao setor privado mediante cobrança de pedágio, seja
pelas necessidades internas do país, seja pelas geradas pelos acordos econômicos.
7 Há tendência a considerar a
compatibilidade de recursos privados e públicos, visando a cobrança de pedágios em
valor aceito pelos usuários.
8 Reconhece-se que o poder concedente deve
incorrer em maiores responsabilidades e riscos, sobretudo no financiamento do projeto, nos
avais e garantias.
9 Os motivos para a instituição de
rodovias com pedágios dependem do grau de desenvolvimento do país, pois visam
reduzir as conseqüências ambientais
provocadas por sua utilização, e
propiciar a ampliação e/ou manutenção do
sistema viário, sem onerar os cofres públicos.
Viabilidade
financeira
A viabilidade financeira de uma concessão depende
do custo de sua implantação e operação, e dos valores de receitas a realizar com sua
exploração. A rentabilidade do empreendimento é que o tornará ou não atraente para a
empresa privada.
As concessões podem ser subsidiadas quando elas
não são financeiramente viáveis, com o poder público estabelecendo subsídios diretos
ou indiretos, que funcionam como complementação da tarifa.
No caso das concessões financeiramente viáveis,
elas podem ser onerosas ou gratuitas. No caso das onerosas, o Estado recebe um pagamento
ou uma parcela da tarifa, quando os empreendimentos permitem retorno suficiente para isso.
Nas gratuitas, estabelecem-se apenas obrigações a serem assumidas pelas
concessionárias, que podem incluir a manutenção e recuperação de trechos não
tarifados. Este é o caso das concessões no Paraná e Rio Grande do Sul.
Os programas de concessão que enfrentaram
problemas em outros países, particularmente no México, tiveram as seguintes origens:
Cálculo de custos de investimentos e
operações mal feitos e aumento dos juros, levando as concessionárias a ficar sem
capacidade de investir
Falhas legais e regulatórias, envolvendo o
financiamento de longo prazo e atrasando as obras
Inadequado critério de seleção de
empresas, permitindo licitantes sem capacidade de assumir a gestão dos processos de
construção, operação e administração
Má avaliação dos estudos de tráfego
Dimensões
de análise
Identificadas as razões para o Programa de
Concessões reforma do Estado, necessidade de financiamento do setor rodoviário,
pedágio como forma de financiamento e analisadas as alternativas da parceria
público-privado e o PECR do Rio Grande do Sul, buscou-se identificar os aspectos
principais impactados pela implantação de pedágio.
Essa identificação levou em conta questões
relativas a:
Percepção que o usuário tem da qualidade
dos pavimentos e dos serviços das rodovias
Incidência dos desembolsos com pedágio na
composição dos custos dos veículos de carga
Participação dos custos de transporte nos
custos totais dos produtos de distintos setores.
Os principais aspectos identificados foram
denominados "domínios de impacto".
São eles:
FAceitação do pedágio pelos usuários
FO pedágio e o custo operacional dos veículos de
carga
FO custo do transporte na cadeia produtiva
FO pedágio e o custo dos produtos.
Os dados resultantes das principais análises e
confrontos com a literatura técnica permitem responder às três questões inicialmente
colocadas neste trabalho:
FA tarifa atual coincide com o que o usuário está
disposto a pagar?
FA melhoria das rodovias compensa a tarifa cobrada?
FO custo dos produtos será alterado com a
cobrança de pedágio?
[topo da página]
Aceitação pelos usuários
Para responder à primeira questão: "A tarifa
atual coincide com o que o usuário está disposto a pagar?", foram tomados como base
os valores atribuídos pelos usuários para o conjunto de itens que compõem a concessão:
pavimentação, sinalização, serviços e tarifas dos pedágios ofertadas de forma
diferenciada.
A
forma de pesquisar
Uma resposta sustentável a essa pergunta exige o
uso de modelos comportamentais, do tipo empregado no planejamento de transportes. Por
envolver expectativas diante de cenários novos, é fundamental a utilização de
técnicas de preferência declarada, nas quais o usuário faz escolhas frente a cenários
diferentes e hipotéticos.
Os modelos comportamentais desagregados, como o
utilizado pela equipe do Lastran, possibilitam ponderar as escolhas de cada indivíduo
face às situações apresentadas pelo pesquisador. A análise dessas escolhas é feita
com base na visão de que os indivíduos buscam obter o máximo proveito na alocação de
seus recursos frente às restrições existentes. Para isso é montada uma equação
matemática envolvendo os atributos do produto ou serviço, e alocados coeficientes aos
números a partir da percepção de quanto eles influenciam, com base na Teoria da
Utilidade Aleatória.
O software escolhido pela equipe do Lastran foi o
Logit Multinomial (MNL), o mais usado em pesquisas de transporte, que procura reproduzir o
comportamento do usuário e permite a utilização dos dados da Pesquisa de Preferência
Declarada.
A coleta de dados incluiu a busca em institutos de
pesquisas (IPEA, FEE e outros), órgãos públicos (DAER, GEIPOT, DNER, Ministério dos
Transportes, Secretarias de Estado e outros) e pesquisa de campo.
A pesquisa de campo foi feita no período de três
meses, utilizando técnicas de Preferência Declarada, em regiões do Rio Grande do Sul
incluídas e não incluídas na região dos pólos rodoviários (Scharlau, Lajeado, Santa
Cruz do Sul, Carazinho, Pelotas, Gramado e Santa Rosa. O número de respostas usadas para
a modelagem foi de 21.706, correspondendo a 2.412 usuários entrevistados. O número total
de entrevistados foi de 3.200.
O experimento de Preferência Declarada permitiu
avaliar a importância relativa atribuída aos diferentes itens considerados, como
condições de pavimentos, sinalização, serviços prestados e valores de pedágio,
individualmente e de forma conjunta, através de uma função probabilística de escolha
capaz de reproduzir a estrutura de decisão dos usuários das rodovias concessionadas.
A coleta de dados a partir das técnicas de
Preferência Declarada consiste na apresentação de vários cartões para a escolha do
usuário, com cenários diferenciados, de tal forma que é possível estabelecer uma
"função" de suas escolhas (uma curva, em um gráfico). Esses dados são
trabalhados através de modelos matemáticos, de forma a produzir um gráfico final, com
uma função representativa do conjunto de escolhas.
Esse tipo de tratamento matemático identifica
especificamente qual o valor que cada item da consulta possui para o entrevistado (o
quanto pagaria pelo pedágio, pelo pavimento, pela segurança etc.). Também foram
testados valores até 30% maiores e menores do que os preços da tarifa real do pedágio
sem os descontos aplicados até o final de 1998.
Os
resultados em reais
A tabela a seguir mostra os valores monetários
atribuídos pelos usuários aos itens pavimento, sinalização e serviços.
| VARIÁVEL |
CAMINHÕES
EMPRESA
(R$ por eixo) |
CAMINHÕES
AUTÔNOMOS
(R$ por eixo) |
AUTOS
PASSEIO
(R$ por veículo de dois eixos) |
AUTOS
TRABALHO
(R$ por veículo de dois eixos) |
| Pavimento |
1,73 |
1,96 |
4,57 |
4,45 |
| Sinalização |
0,04 |
0,10 |
0,62 |
0,55 |
| Serviços |
0,13 |
0,02 |
0,20 |
0,20 |
| TOTAL |
1,91 |
2,08 |
5,39 |
5,00 |
É interessante notar que os caminhoneiros
autônomos estão dispostos a pagar mais do que os motoristas de empresas, provavelmente
porque percebem de forma mais direta o impacto dos custos de manutenção e segurança de
seus veículos.
Pesquisa realizada numa região não incluída nos
pólos rodoviários (Santa Rosa) mostrou que, também onde não há previsão de pedágio,
os motoristas estão dispostos a pagar pelo uso da rodovia, tendo os caminhoneiros
atribuído até um valor maior à tarifa (R$ 2,40 por eixo).
Assim, é clara a aceitação e pode-se afirmar que
os usuários, de modo geral, são favoráveis ao pagamento de uma taxa para conservação
das rodovias, atribuindo valores aos diversos aspectos da rodovia.
Na ocasião, talvez com base no estado precário
das rodovias, destacou-se a condição do pavimento com importância maior do que a
sinalização ou os serviços disponíveis. Acredita-se, no entanto, que com a melhoria do
pavimento o usuário passará a dar valor maior à sinalização e aos serviços.
Os usuários de automóveis revelaram aceitação
do valor do pedágio e até de valores ligeiramente superiores. Já os usuários de
caminhões preferem pagar menos, apesar de o valor por eixo ser inferior ao do valor
básico do pedágio.
Assim, concluiu-se que a resposta é: Sim, a tarifa
atual coincide com o que o usuário está disposto a pagar, para os usuários de
automóveis. E parcialmente para os veículos de carga, já que eles se dispõem a pagar
80% do valor básico.
[topo da página]
O custo operacional
dos veículos de carga não sobe
A resposta à segunda pergunta: "A melhoria
das rodovias compensa a tarifa cobrada?", foi dada pela análise de custos
operacionais dos veículos, limitando-se ao transporte de cargas por caminhões, que
prevalece no Estado do Rio Grande do Sul.
O transporte rodoviário de cargas no Brasil
envolve um número de empresas estimado entre 11.000 e 15.000 (transportadoras e empresas
com frota própria), e cerca de 350.000 caminhoneiros autônomos, gerando receitas de
frete da ordem de US$ 50 bilhões/ano, segundo o Banco Mundial. Os autônomos, na
avaliação dessa instituição, trabalham abaixo do nível de equilíbrio financeiro de
longo prazo, utilizando apenas o combustível como referencial de custos.
Como
se compõe o custo operacional
O custo operacional do transporte de carga está
ligado a uma série de, que inclui custos diretos de operação (combustível,
lubrificante, lavagem e lubrificação, pneus, acessórios, peças, manutenção etc.),
que variam de acordo com a utilização, custos fixos / depreciação, remuneração do
capital, salários, licenciamento, seguro etc.), e custos administrativos da empresa
transportadora.
Para análise do custo operacional foi utilizado o
software Trans System (TS) que as empresas de transportes usam para aplicar a metodologia
dos "Custos Médios Desagregados". No presente trabalho, o cálculo com o TS
objetivou uma para efeitos de comparação da magnitude de resultados com os obtidos no
HDM (Highway Design and Maintenance Standards Model), uma ferramenta que permite
calcular o custo operacional dos veículos levando em conta especificamente as condições
do pavimento.
O cálculo do custo operacional para três tipos de
veículos foi determinado com o uso do software Trans System e mostrou os seguintes
resultados:
A participação percentual de cada item de custo
nos três tipos de veículos é a seguinte:
Assim, o custo de combustível em relação ao
total representa cerca de 10% para caminhões leves, 16% para caminhões médios e 19%
para caminhões pesados.
A
pesquisa nas condições das rodovias
Com o software HDM Manager versão 3.0, de setembro
de 1995, foram analisados os custos operacionais desses três tipos de veículos para as
condições reais das rodovias do Rio Grande do Sul, levando em conta desníveis,
curvatura horizontal e quociente de regularidade da pista de rolamento.
Para a montagem do modelo através do HDM foram
selecionadas seis rotas (CarazinhoRio Grande, Caxias do SulPorto Alegre, Santa
Cruz do SulRio Grande, em três opções rodoviárias, e Porto AlegreRio
Grande) em estradas gaúchas incluídas ou não nas regiões dos pólos. Foram
estabelecidos dois cenários para serem feitas as modelagens: no primeiro, pavimento muito
bom, nas condições previstas pelos projetos de engenharia dos pólos concessionados; no
segundo, nível regular de qualidade do pavimento, conforme se encontravam antes da
concessão, segundo os registros do DAER e DNER. Foi estabelecida, para cada um dos tipos
de caminhão, a relação entre as condições do pavimento e o custo de manutenção.
O estudo concluiu que o custo operacional diminui
quando melhora a qualidade do pavimento (diminuem os custos relativos a manutenção,
pneus e outros itens variáveis). Na média, essa idéia vale para todas as rotas
simuladas. Deve-se ressaltar que é possível simular outras condições.
Os
resultados: impacto das tarifas de pedágio
O cálculo do custo operacional com o software HDM
nas condições propostas mostrou os seguintes resultados médios, para os mesmos
veículos, nas rotas consideradas:
Nota-se que a magnitude dos valores dos custos
operacionais dos diferentes veículos aproxima-se dos resultados obtidos com o software
Trans System.
Esses resultados mostram uma sensível redução no
custo operacional dos três tipos de veículos, quando o pavimento da rodovia passa de
qualidade regular para muito bom, nas condições previstas pelo projeto de concessão.
Comparando essa redução do custo operacional com
o desembolso do pedágio, obtêm-se os seguintes impactos finais:
Caminhão pesado, cenário 1 (boas condições
de pavimento) 0,5% de aumento do custo
Caminhão pesado, cenário 2 (nível regular de
pavimento) 4% de aumento do custo
Caminhão médio, cenário 1 benefício
de 1% (redução do custo)
Caminhão médio, cenário 2 2,3% de
aumento
Caminhão leve, cenário 1 benefício de
1%
Caminhão leve, cenário 2 2,3% de
aumento.
As simulações realizadas no estudo indicam que a
circulação na rodovias melhoradas implicam em pequenas reduções nos custos
operacionais, ou seja, existe uma compensação entre os valores desembolsados com o
pedágio e a redução de custos operacionais, o que indica estarem as concessões
apresentando ganhos específicos locais para os usuários. Entretanto, como as rotas não
se restringem apenas à circulação dentro dos pólos, as mesmas simulações indicam
que, para rotas completas, a compensação observada dentro dos pólos pode não ocorrer
para todos os usuários, em particular para os caminhões. Isto se deve ao fato de
existirem gaps, ou trechos entre os pólos que não apresentam os mesmos níveis de
serviço (as estradas continuam em más condições).
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Quase não há impacto sobre o custo dos produtos
Para responder à terceira questão proposta:
"O custo dos produtos será alterado com a cobrança dos pedágios?", foi feito
um questionamento direto às empresas, para complementar o levantamento feito sobre custo
operacional dos veículos.
A
pesquisa
A participação percentual dos custos de
transporte em relação ao custo dos produtos é maior para os produtos e subprodutos de
baixo valor agregado. Depende também da localização dos pólos produtores, das cadeias
produtivas, das alternativas de transporte e das distâncias a serem percorridas.
Um relatório do Banco Mundial de 1997 mostra que
no Sul e Sudeste do Brasil o total dos custos logísticos (que incluem, além do
transporte, o custo do estoque em trânsito e do consignatário, além do custo do pedido)
varia de 4,09% do valor da carga para produtos siderúrgicos a 25,87% para cimento, com
produtos agrícolas (trigo, soja, milho) se colocado na faixa intermediária (8,65% /
9,25% / 10,33% respectivamente).
Inexistindo séries históricas e dados
disponíveis para uma avaliação regional, a opção da equipe do Lastran foi enviar as
seguintes perguntas a empresas dos setores escolhidos pela sua importância no PIB do Rio
Grande do Sul (metal-mecânico, fumageiro, coureiro-calçadista, indústria química, soja
e leite):
Qual a participação do custo do transporte
rodoviário na composição dos custos totais da empresa?
Qual o tipo de transporte utilizado pela empresa
(próprio, misto, terceirizado)?
Qual o destino principal da produção da
empresa?
Foram obtidas 67 respostas das empresas
selecionadas, garantindo um grau de confiabilidade suficiente para chegar a conclusões.
Os resultados foram validados pela comparação com
outros estudos feitos por instituições como Banco Mundial, teses de mestrado e outros,
para que pudesse ser avaliada a magnitude das informações.
Os
resultados
As respostas enviadas pelas empresas mostram os
seguintes resultados médios para a participação do custo do transporte no custo final
dos produtos:
| Setor |
% custo
médio do transporte |
| Químico |
2.8% |
| Coureiro-calçadista |
3.19% |
| Fumageiro |
3.25% |
| Metal-mecânico |
3.78% |
| Soja |
6.35% |
| Leite |
7.07% |
Pelas respostas obtidas vê-se que a participação
do custo de transporte é de pequena proporção no custo final dos produtos, com
exceção do leite e da soja, confirmando dados existentes na literatura nacional e
internacional.
As modificações nos custos operacionais
(incluídas aí a cobrança de pedágio e as possibilidades de variação sobre seu valor)
podem ter implicações no valor dos fretes, embora de pequena intensidade, uma vez que o
item "transporte", na composição do preço final dos produtos considerados, é
da ordem de 2,8% a 7,07%.
Admitindo-se uma variação média entre 0,5% e
3,9% nos custos operacionais dos veículos, e considerando-se a participação percentual
dos custos de transportes nos diversos produtos, o estudo indica a tendência de que pode
haver um acréscimo máximo de 0,3% nos custos finais dos produtos, obviamente dependendo
do setor considerado.
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O
programa estadual de concessão rodoviárias do Rio Grande do Sul
O Programa Estadual de Concessão Rodoviária
(PECR), originado em 1995, define valores e prazos de concessão, regras para fixação de
tarifas, direitos e obrigações do poder concedente e das concessionárias.
Sua base foi o Programa de Pedágio Estadual
implantado em governo anterior (Collares), em plena vigência com praças
instaladas em Passo Fundo, Campo Bom e Portão. As pesquisas de opinião junto aos
pedágios estaduais confirmaram sua aceitação média (86,1%). Em Campo Bom, 90% dos
usuários de carros de passeio aceitam bem o pedágio e também 88,7% dos de veículos
comerciais. Em Portão revelou-se menor (1995) a aceitação: 56% e 59% respectivamente.
No período 1995-98, do ponto de vista da
infra-estrutura rodoviária, a ênfase foi promover maior participação do setor privado
na ampliação, conservação e restauração da malha rodoviária, com a implantação de
novas praças de pedágio, como alternativa à crônica deficiência de recursos.
A mensagem do governador à Assembléia Legislativa
do Rio Grande do Sul em 1996, início do Programa Estadual de Concessões Públicas,
dizia:
"Também importa salientar que as
carências constatadas na infra-estrutura econômica estão a dificultar a atração de
novos investimentos capazes de promover uma nova etapa de desenvolvimento econômico.
(................). No que diz respeito às parcerias, o Governo do Estado vem tentando
alterar o perfil sócio-econômico do Rio Grande do Sul, permitindo à iniciativa privada
participar do desenvolvimento de grandes projetos, principalmente nas áreas de energia,
telecomunicações, saneamento, recursos hídricos e transportes. Para tanto, está sendo
gestado o Programa Estadual de Concessões Públicas do qual os Projetos de Lei que
permitem a concessão dos Pólos de Concessão Rodoviária foram as primeiras iniciativas
aprovadas pela legislação estadual."
Um pólo de concessão rodoviária é entendido
como um complexo de obras formado por um conjunto de segmentos rodoviários convergentes
para o que se chama nó rodoviário. Um pólo possui no mínimo três trechos e três
praças de pedágio, cuja cobrança é no sentido pólo-malha.
As
definições do PECR
São premissas do PECR:
FA tarifa é fixada pelo Estado
FO valor da tarifa deve ser aceitável pelo
usuário
FA contrapartida do ônus tarifário (para o
usuário) deve ser um benefício com razão unitária
FA estrutura tarifária deve contemplar as diversas
categorias de veículos, associadas aos respectivos efeitos sobre o pavimento das rodovias
FO usuário deve ter direito ao acompanhamento dos
cálculos, reajustes e revisão das tarifas
FO sistema deve oferecer aos usuários benefícios
não existentes em outras vias (assistência ao usuário)
FO principal dos benefícios adicionais deve ser a
sinalização, intensa e com padrões técnicos avançados
FO Estado deverá permanentemente fiscalizar o
sistema, para garantir inclusive o equilíbrio econômico-financeiro do empreendimento
FAo final do período de concessão, as rodovias
devem retornar ao Estado em perfeitas condições de uso.
Os direitos e deveres do concessionário são,
entre outros:
FPrestar um serviço adequado, na forma prevista em
lei, normas técnicas e no contrato
FCumprir e fazer cumprir as disposições e
cláusulas contratuais
FCobrar as tarifas autorizadas
FManter registros das instalações, equipamentos,
materiais e recursos humanos da concessão independentes da contabilidade geral do
concessionário
FZelar pela integridade dos bens vinculados à
prestação do serviço.
Aos usuários, entre outros deveres e direitos
constam:
FReceber um serviço adequado
FReceber, do poder concedente e da concessionária,
informações para defesa de interesses individuais ou coletivos
FCumprir as obrigações regulamentares da
utilização do serviço.
Da
escolha dos pólos à concessão
A escolha dos pólos incidiu sobre 25,26% (90
municípios) do território estadual, onde se concentram metade (50,3%) da população
gaúcha e 51% do PIB. Instalados no leste, centro e norte do Rio Grande do Sul as
regiões mais rentáveis , os pólos foram definidos por critérios
econômico-financeiros, para viabilizar os investimentos privados. Não foi por acaso a
escolha de localização dos pólos ao longo das rodovias estratégicas do Estado: elas
interligam regiões agroexportadoras aos maiores centros industriais e comerciais e ao
porto de Rio Grande.
Outro fundamento do PECR foi a decisão do Governo
Federal de delegar aos Estados e municípios, pelo prazo de 25 anos, prorrogáveis, a
administração de rodovias ou obras rodoviárias federais. É interessante observar que,
do total da malha do PECR, 69,82% da extensão é federal e 30,18% estadual.
Todas as concessões basearam-se em
pré-qualificação e posterior licitação, julgada esta pelo critério de maior oferta
de recuperação e manutenção de extensões/obras adicionais. O prazo de concessão é
fixado em 15 anos e a remuneração do concessionário é assegurada pela cobrança ao
usuário de pedágio que propicie receitas suficientes para cobrir os custos do serviço,
acrescidas da justa remuneração do concessionário.
A obras e os serviços foram previstos pelos
projetos de engenharia econômica e formulados em três etapas:
1 Recuperação imediata de trechos
críticos da rodovia (limpezas, roçadas, remendos, restaurações e sinalização
provisória)
2 Implantação e operação de praças de
pedágio, serviços de melhoramentos e apoio aos usuários
3 Conservação e manutenção das rodovias
e serviços adicionais de apoio aos usuários.
Levando em conta que a concessão da exploração
dos Pólos Rodoviários pressupõe a prestação de serviços adequados ao pleno
atendimento dos usuários, os contratos conceituam serviço adequado: é o que satisfaz
condições de regularidade, continuidade, eficiência, conforto, segurança, fluidez do
tráfego, atualidade (modernidade na técnicas, instalações e equipamentos),
generalidade (serviços iguais para todos os usuários, sem discriminação), cortesia na
sua prestação e modicidade das tarifas.
As tarifas de pedágio são diferenciadas por
categoria de veículo (número de eixos), em função dos desgastes físicos da rodovia e
conseqüentes custos acarretados, tendo se estabelecido o fator multiplicador 1,67 entre
veículos de passeio e de carga.
É importante destacar que quatro dos nove pólos
pelo custo necessário (por quilômetro) para manter a rodovia no nível desejado
não apresentavam viabilidade econômica (Vacaria, Gramado, Carazinho e Santa
Maria). São os chamados Pólos Dependentes, nos quais o Estado restaurou trechos e/ou
complementou extensões. Inversamente, são chamados Pólos Independentes os demais, que
têm receita prevista maior que os custos e onde, portanto, não houve necessidade de
restaurações prévias bancadas pelo Estado.
Além disso, observe-se ainda que os valores de
pedágio cobrados pelo DAER (estadual) são menores que os cobrados pelo DNER, porque o
fator da tarifa federal é cerca de 17% superior ao utilizado pelo departamento estadual.
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Conclusões
e recomendações
Avaliar o custo-benefício decorrente do Programa
Estadual de Concessões Rodoviárias do Rio Grande do Sul foi o objetivo do estudo
realizado e apresentado pelo Lastran.
Buscou-se caracterizar as condições em que se
desenvolve, não só no Rio Grande do Sul, a discussão sobre concessões. E também a
necessidade de obter recursos para manutenção das rodovias em níveis compatíveis com
as exigências do setor produtivo.
Observa-se no Rio Grande do Sul celeridade nos
processos de desestatização, e esse fato evidencia a importância de uma agência
reguladora em pleno funcionamento.
A partir da Constituição de 1988 foi extinto o
Fundo Rodoviário Nacional e o Estado passou a reconhecer a relevância da participação
do setor privado. A falta de investimentos nas rodovias se acentuou com o excesso de
cargas. Quando determinado trecho é submetido a rigoroso controle do tráfego pesado
chega-se a ciclos médios de recapeamento de quatro anos, três vezes maiores do que em
rodovias sem controle de peso, além, é claro, do maior risco de acidentes.
Por exemplo, conclusão recente de uma análise
revela que a vida útil do pavimento se reduz em até 85% quando a carga por eixo e a
pressão dos pneus aumentam das normais para condições de sobrecarga e alta pressão de
inflação.
Recomendações
para o futuro
Recomenda-se como continuidade do programa, buscar
uma visão global da rede rodoviária gaúcha, a partir do processo de operação e
manutenção das rodovias sob responsabilidade do Governo do Estado.
É necessário criar uma ampla base de dados sobre
o planejamento de transportes integrado a informações geográficas, tendo em vista
futuras políticas de transporte que contemplem de metas de produtividade e qualidade a
aspectos ainda não considerados, como acidentes e meio ambiente, por exemplo.
As agências reguladoras devem ampliar seu
desempenho para assegurar os níveis de serviços prestados pelas concessionárias, a
partir de critérios que minimizem a subjetividade. Como apenas parte da malha gaúcha
está concessionada, é importante estender o monitoramento, em especial nos trechos que
interligam os pólos. Essa seria uma forma de não deixar nos usuários a sensação de
estar pagando por algo que não é contínuo e homogêneo.
Qual a
principal conclusão do estudo?
Os dados encontrados permitem estabelecer que há
uma variação inferior a 0,5% no custo dos produtos com a cobrança do pedágio,
dependendo da rota utilizada e de outros itens, inclusive o valor agregado ao produto e o
tipo de caminhão.
Quanto à discussão sobre se o preço do pedágio
cobrado no Rio Grande do Sul é alto ou baixo em relação aos Estados Unidos, Europa ou
países da América Latina, é preciso tomar cuidado com as comparações.
Cada país tem um formato de concessão, de tal
forma que a tarifa cobrada no pedágio se refere à remuneração de itens específicos,
constantes no contrato que regulou a parceria Estado-empresa. Assim, torna-se impossível
estabelecer comparações com os outros países, uma vez que os pedágios remuneram itens
diferentes. Acrescente-se a isso o fato de que o presente estudo não teve como finalidade
avaliar a justiça, ou auditar o preço do pedágio, mas apenas mensurar seu impacto na
economia do Estado.
Finalmente, quanto à discussão sobre "rotas
alternativas", em referência à possibilidade do uso de estradas não pedagiadas
para evitar o pagamento do pedágio, é preciso lembrar que a construção de novas
estradas (alternativas à do pedágio) implica duas novas questões: primeiro, quais
seriam as fontes de recursos para a construção e manutenção da nova estrada; e,
segundo, se haveria demanda de tráfego compatível com a abertura de nova estrada, quando
a capacidade da primeira ainda não se esgotou. E, se não há demanda de tráfego, seria
viável economicamente investir recursos em uma nova estrada?
A idéia preponderante no programa de concessões
do Rio Grande do Sul baseia-se, a exemplo de outros países, no conceito "quem
utiliza a infra-estrutura rodoviária é responsável pelo desgaste das rodovias, e deve
pagar pela manutenção das mesmas". Nesse caso, a rota alternativa perde o sentido,
uma vez que manter duas rodovias, sem que exista congestionamentos, é um processo oneroso
para a sociedade como um todo.
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Quem são os autores do
trabalho
O trabalho foi realizado por uma equipe
multidisciplinar de professores e pesquisadores do Laboratório de Sistemas de Transportes
(Lastran) da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenada
pelos professores Luis Afonso dos Santos Senna e Fernando Dutra Michel.
O Professor Senna é engenheiro civil, com
doutorado na área de transportes pela Universidade de Leeds, Inglaterra.
O Professor Michel é engenheiro civil, mestre pela
Pontifica Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutorando.
O Lastran mantém intercâmbio técnico-científico
com centros de pesquisa do Brasil e do exterior, desenvolvendo atividades conjuntas com
universidades e institutos localizados na Inglaterra, França e Espanha. Entre seus
clientes para estudos e projetos estão as Nações Unidas, Trensurb, Prefeituras
Municipais (dentre as quais a de Porto Alegre), EBTU, Ministério dos Transportes,
Coester, Companhia Vale do Rio Doce, Sinduscon, DAER e outros. Além de modelos
computacionais desenvolvidos localmente, o Lastran possui um amplo acervo de softwares
destinados a análise e solução de problemas na área de transportes e logística, entre
os quais o Saturn, software desenvolvido pela Universidade de Leeds, Inglaterra, com o
qual está sendo realizado o projeto de modelagem do trânsito de Porto Alegre.
Entre as atividades de ensino do Lastran, que
incluem graduação, especialização, mestrado e doutorado (início em 1999), destaca-se
o Mestrado Profissional na área de Transportes, que visa fornecer formação de alto
nível para profissionais integrados ao mercado de trabalho. O Lastran está localizado no
prédio Centenário da Escola de Engenharia, Praça Argentina, 9, sala 402, fones (051)
316-4006/3545, fax (051) 316-4007.
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Contato
Para maiores informações entre em contato com o
LASTRAN
Praça Argentina, 9, sala 408, Porto Alegre
CEP 91040-020
fone (0**51)
316-3596, fax (0**51) 316-4007
e-mail: fdmichel@ufrgs.br
lsenna@ufrgs.br
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