Criatividade
e Tecnologia: uma Relação de Convivência no Processo de Ensino-Aprendizagem
Gretel Siblesz Gil[1]
Maria Beatriz Costa Cabral Costa Silva[2]
Maria Helena Carrion Kessler
Raquel Lourdes Rizzo[3]
Rodrigo dos Santos Keller[4]
Silvia Fernanda Martins Brandão[5]
"Educar
é criar, realizar e validar a convivência, uma maneira particular de conviver."
Humberto Maturana
"Os homens constróem as ferramentas, as
ferramentas reconstroem os homens."
MacLuhan
Resumo: O objetivo deste artigo
é analisar a aprendizagem, utilizando como parâmetros de estudo a tecnologia, o ensino a
distância e a criatividade humana. Pretende-se, nesse trabalho, responder a seguinte
questão: É possível utilizarmos a tecnologia com a criatividade necessária e
inerente ao processo de aprendizagem?. Para responder a questão, utilizar-se-á
o olhar da Ecologia Cognitiva, que busca estudar as relações entre a inteligência
singular, a tecnologia e as instituições. A tecnologia está modificando toda a
relação do ser humano com o mundo, seja o social, o ambiental, o físico ou o mental.
Esse fato faz com que novas redes e novas conexões sejam constantemente estabelecidas. A
concepção de aprendizagem do autor Humberto Maturana servirá como base teórica a
redação deste trabalho; portanto a aprendizagem será vista como um fenômeno
biológico, onde as interações recorrentes permitem que o sujeito conserve a sua
organização de ser vivo e sua congruência com a circunstância, e os encontros e as
interações são os que desencadeiam mudanças na estrutura. Visto a importância que
têm os encontros e as interações no processo de aprendizagem, o sujeito será analisado
de acordo com o que quer aprender, o porquê desses interesses, e como eles se relacionam
com o meio social e ambiental onde estão inseridos. A intenção é procurar as
ferramentas de Educação a Distância (EAD), que possibilitem aproveitar as vantagens da
tecnologia como agente transformador da sociabilidade. Para que essa função seja
exercitada acredita-se ser fundamental permitir o pleno exercício da criatividade de
todos os atores envolvidos. Isso porque, a criatividade é vista como elemento de
contribuição para a melhoria da qualidade da educação. Será discutido também, qual
é o espaço de convivência ideal dentro desse contexto, um espaço de escuta, de ação,
de interação, de criação e de transformação da convivência entre educador,
educando, tecnologia e sociedade. As escolas são espaços criativos de convivência.
Outra fonte de análise utilizada será a experiência dos alunos, como aprendizes a
distância, do Curso de Especialização em Informática na Educação, ministrado pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no período de Outubro de 2000 a Julho
de 2001.
Palavras-Chave: Tecnologia, Criatividade, Pensamento Criativo, Interatividade, Convivência, Educação à Distância, Aprendizagem.
Os primeiros conceitos que
qualificavam a Educação a Distância (EAD), hoje não a caracterizam pelo que ela
realmente é, pois estabeleciam uma comparação imediata com a educação presencial, o
que hoje não ocorre, pela facilidade que a tecnologia computacional oferece. A EAD era
vista como um meio de obtenção do conhecimento utilizando métodos diferentes dos
tradicionais oferecidos pelas instituições de ensino. Essa definição era correta, mas
não esclarecia o que era EAD, nem tampouco oferecia meio científico para estabelecer o
que poderia ser um programa de EAD.
Estudos recentes conceituam
Educação a Distância de forma mais precisa e objetiva para realmente diferenciá-la dos
significados diversos. Segundo alguns autores, a característica básica da educação a
distância é o estabelecimento de uma comunicação com via dupla, em que professor e
aluno se encontram em espaços diferentes. Alguns outros autores, utilizam outras
denominações para EAD, tais como: estudo aberto, educação não tradicional, estudo
externo, extensão, estudo por contrato ou estudo experimental.
No entanto, hoje a educação
a distância, baseada na Internet, exige tecnologias e equipamentos ainda não
disponíveis para a maioria da população mas, mesmo assim, a EAD não pode ser ignorada.
Afinal, as vantagens e facilidades são maiores do que as dificuldades enfrentadas para
adquiri-la.
A EAD fundamentada em
conceitos construtivistas permite que professores e alunos interajam trocando
informações e conhecimentos. E, para que essa troca de informações ocorra, tecnologias
digitais de comunicação foram e ainda continuam sendo implementadas - com o objetivo de
oferecer um serviço barato, rápido, de qualidade e confiável.
Como se
caracteriza a EAD:
A EAD se caracteriza por
alguns fatos essenciais, que valem a pena ser mencionados:
·
separação física do professor e
aluno, tradicionalmente no mesmo espaço do processo de ensino e aprendizagem;
·
utilização de meios técnicos de
comunicação para unir o professor ao aluno e fazer com que o aluno adquira conhecimento;
·
previsão de uma comunicação aberta
do professor ao aluno e vice versa, onde o aluno se beneficia de um diálogo;
·
a separação do professor e do
estudante no espaço e ou, no tempo;
·
controle da iniciativa de
aprendizagem, pelo estudante, ao invés do professor;
·
com a velocidade das mudanças
tecnológicas, o sistema educacional é desafiado a ampliar as oportunidades sem aumentar
os orçamentos; e
·
possibilidade de encontros ocasionais
(presenciais), com propósitos didáticos e de socialização.
Evolução
da EAD:
Segundo Chaves (1999), a
primeira tecnologia que tornou viável os cursos de EAD foi à escrita, pois possibilitou
às pessoas escreverem o que antes só poderia ser falado. A tecnologia tipográfica,
inventada posteriormente, ampliou o alcance da educação a distância, surgindo a
primeira forma de EAD que foi o ensino por correspondência. Portanto, o livro ainda é a
tecnologia mais importante para o ensino a distância, mesmo com o aparecimento de novas
tecnologias (eletrônicas digitais). Isso porque o acesso às mesmas ainda é limitado
para a maioria da população.
O surgimento de outras
tecnologias da comunicação e informação, como o rádio, a televisão e mais
recentemente o computador, veio dar uma nova dinâmica a EAD. Para Chaves (1999), cada um
desses meios introduziu um novo elemento a EAD:
·
O rádio, desde a década de 20,
permitiu que a parte sonora da aula fosse levada a localidades distantes;
·
A televisão, desde à década de 40,
permitiu que a imagem fosse levada junto com o som às localidades mais remotas;
·
O computador, desde à década de 70,
permitiu que texto, fotos, sons, vídeos, gráficos da aula fossem enviados ou buscados,
com facilidade, obtidos dos locais mais longínquos no nosso planeta. O correio
eletrônico permitiu que as pessoas se comunicassem assincronamente, mas com extrema
rapidez e os "chats" permitiram a comunicação síncrona entre várias pessoas.
A web permitiu que o acesso a esse material fosse de forma interativa e não linear,
usando a tecnologia do hipertexto.
·
A
convergência de todas essas tecnologias para um só mega-meio de comunicação, centrado
no computador, e portanto interativo, permitiu a realização de conferências
eletrônicas envolvendo componentes de áudio e textos.
Segundo Maturana (1990), a
democracia possível e desejável é aquela que entrega a cada cidadão elementos para um
trabalho autônomo, social e ecologicamente responsável. Em sua palestra, sobre a
"Fenomenología del Conocer", publicada em 1983, na "Revista de Tecnologia
Educativa", (1983,p.149), Maturana afirma que a EAD permite uma modificação no
escutar, ver e fazer. A EAD permite a cooperação, em qualquer nível, já que transpõe
barreiras culturais e das classes econômicas. Dessa forma, ela coopera com a formação
de uma psique democrática ao tratar todos os indivíduos igualmente quando estes chegam a
ela, quaisquer que sejam suas origens, e entrega a eles um espaço reflexivo que permite a
construção de um projeto comum, qualquer que seja esse.
Sobre o papel do educador,
nesse contexto, Maturana tem a seguinte opinião: "... a tarefa do professor é
dupla. Por uma parte deve ajudar a que o aluno adquira habilidade operacional no tema que
ensina e por outra, deve guiar o emocional do aluno em direção a uma liberdade reflexiva
total, tanto no tema como fora dele. O ensino é uma tarefa de conspiração entre o
professor ou professora e o aluno, que o professor deve guiar ao mover-se desde a
aceitação do aluno na sua dignidade individual. ... Então, em educação a Distância o
professor não pode ser visto como uma ampliação do texto, pois opera com o âmbito de
reflexão no qual o texto e o seu estudo têm sentido operacional e social."
Dessa forma, deve-se tentar
fazer com que esses espaços coletivos permitam fazer entrega a cada cidadão dos
elementos para que este seja autônomo, social e ecologicamente responsável, com a
finalidade de trabalhar de maneira democrática (Maturana, 1983).
Ao tentar procurar formas de
aproveitar a tecnologia, como agente transformador da sociabilidade, é possível que a
tecnologia seja mais complicada que seguir uma concepção de aprendizagem associativa.
Por parte dos professores, é muito mais fácil trabalhar com o computador, pois eles
aguardam que os alunos respondam prontamente, ao invés de permitir que os alunos criem
caminhos próprios mais demorados. Depois, a maioria dos recursos disponíveis, no
mercado, segue também uma concepção de aprendizagem alternativa. Por exemplo: tutoriais
e atividades de exercício e prática onde não se é incentivado um aprendizado criativo
no usuário, ou os jogos onde o que interessa é a competição e não a colaboração
entre os usuários.
Mas, graças aos avanços
tecnológicos mudanças estão ocorrendo. A realidade é que, a criação de ambientes de
aprendizagem estão mais interativos, colaborativos, reflexivos e que levam o aluno a ser
cada vez mais responsável pelo seu próprio desenvolvimento e por seus atos. Além disso
suas necessidades e desejos são respeitados.
Existem inúmeros recursos
que podem ser utilizados nesses ambientes virtuais de ensino a distância; dentre eles: o
Microsoft Chat, Learning Space, Equitext, Aulanet, Aavalon, The Palace, Active Worlds,
NetMeeting e CuSee-Me; onde os participantes desses ambientes, entre outras funções,
podem conversar, trocar textos, arquivos, vídeos e som, assistir uma aula, enviar e
receber arquivos, e ainda compartilhar arquivos. Tudo isto em tempo real. Enquanto
ferramentas como o ToolBook e o Everest são usadas para construção e edição de livros
em CD.
Comprar, manter equipamentos
apropriados e treinar professores e orientadores locais para usá-los eficientemente, são
condições necessárias, porém não suficientes para assegurar a uma escola um excelente
programa de EAD. Há outros fatores importantes a serem considerados, muitos dos quais
mais afetivos do que de conhecimento, tais como: atitude amistosa do usuário e habilidade
em implementar suporte ao aprendizado.
Para adoção com sucesso de
tecnologia do EAD, três condições devem ser atendidas: treinar as habilidades
necessárias para trabalhar com a tecnologia, dar suporte para experimentos e inovações,
dispor de tempo suficiente para aprender e praticar.
De forma assíncrona, e a
distância, um grupo de alunos, pode elaborar textos em conjunto, colaborando e cooperando
entre si, através de editores de textos colaborativos. Nesse sentido, dois aspectos
diferentes, mas relacionados, se destacam: o aprendizado sobre o tema específico, de
forma assíncrona, e a habilidade no manejo de mecanismos de apoio para a realização de
um trabalho em equipe. Pode ocorrer discussões, pesquisas, e tantos outros através, por
exemplo, de uma lista ou grupo de discussão.
As tecnologias, aliadas aos
novos paradigmas de educação, permitem que aplicações educativas sejam desenvolvidas
constituindo um ambiente de ensino-aprendizagem interativo com alternativas de solução
para os diversos problemas educacionais; e, mostram também que todos esses recursos
reservam, ao professor, a oportunidade de revitalizar seu papel, trazendo novas dimensões
e perspectivas para o trabalho do mesmo.
Com a democratização do
ensino e o conseqüente empenho para oferecer igualdade de oportunidade de aprendizado,
para todos; é imprescindível pensar uma prática educativa inserida no contexto das
relações sociais globais, considerando a realidade viva do educando e a realidade viva
da sociedade. Nesse contexto, a Web surge como um ambiente imenso favorável ao
ensino-aprendizagem. Esses ambientes de ensino-aprendizagem devem levar em consideração
a comunicação e a interatividade entre professores e alunos, o que dá ênfase à
necessidade de pessoas qualificadas para colaborar, cooperar e interagir.
Com o desenvolvimento de
tecnologias interativas que possibilitam contato, em tempo real, uma pessoa, exemplo por,
conectada a um determinado espaço virtual, pela internet, em Porto Alegre, pode conversar
com outra, também conectada ao mesmo espaço, porém no Japão. Entre locais espalhados
geograficamente distantes surgem as chamadas classes virtuais, ou coletivos virtuais.
Dentre as principais características destes novos coletivos, pode-se citar a
possibilidade de conectividade. Tal interação com um largo espectro de colegas, pode ir
além da própria região, permitindo acesso a um quadro extenso de professores, mentores
e colegas, numa dimensão impossível para uma única instituição educacional local.
As ferramentas de áudio
interativas para o educador a distância incluem o telefone, a áudio-conferência e o
rádio de ondas-curtas. A áudio-conferência pode ser somente áudio ou pode ser apoiada
por transmissões de dados acrescentadas com imagem ou com conferências áudio-gráficas.
A conferência de áudio utiliza o sistema de telefonia pública para a conexão entre as
pessoas, em duas ou mais localidades. Para realizar áudio-conferências para grupos
grandes, são usados recursos adicionais para redução de ruídos e interferências nas
transmissões. Os componentes técnicos de uma conferência de áudio podem incluir o fone
do telefone, microfones, uma fonte de áudio para interconectar múltiplas linhas
telefônicas e controlar ruídos, e um dispositivo de altofalante para facilitar as
interações múltiplas.
É de fundamental
importância para os estudos da comunicação mediada pelo uso do computador que seja
feita uma análise sobre o conceito de interatividade. A interatividade pode ser definida
como as interligações existentes entre o homem e a máquina, o homem e o homem e ainda,
a máquina e a máquina. A interação homem-homem ocorre, por exemplo, pelas mensagens de
e-mails, nos IRCs e também nas salas de bate-papos; a interação máquina-máquina
ocorre nas ferramentas de busca automática e nas próprias máquinas de indexação
enquanto a interação homem-máquina poderia se dar, por exemplo, na utilização de
editores de textos.
Um ambiente de aprendizagem
interacionista deve ser o resultado tanto da participação de alunos, professores e
pesquisadores, quanto da estrutura do próprio ambiente. É a interatividade que deve
mediar a conexão entre o usuário e a informação, possibilitando a cooperação e
colaboração dos mesmos para que se dê a construção do conhecimento.
Essa interação, em EAD,
não se dá apenas entre o aluno e material instrucional, alunos entre si, alunos e tutor,
alunos e instituição de ensino. Dá-se, também, entre os demais elementos que compõem
o universo do aluno (história de vida, família, trabalho, classe, outros grupos a que
pertença). Uma educação à distância interacionista tem por objetivo ajudar os
participantes a equilibrarem suas necessidades e habilidades pessoais favorecendo sua
participação em tarefas de grupo síncronas e assíncronas onde há
avanço rápido, troca de experiências, dúvidas e resultados positivos. A aprendizagem,
que também é decorrente de relações (interações) com objetos (os objetos de Piaget)
não obrigatoriamente inclui o afeto, embora a afetividade deva ser trabalhada em conjunto
com a cognição e com os aspectos psicomotores. A Epistemologia Genética do mestre
de Genebra (Piaget) é um corpo teórico revolucionário pois tira a ênfase exclusiva
sobre o sujeito ou o objeto (Primo e Cassol). Como sua epistemologia é
interacionista, ele valoriza a interação entre sujeito e objeto.
Diante da diversidade, é
preciso atenção para valorizar as diferenças, estimular idéias, opiniões e atitudes,
desenvolver a capacidade de aprender a aprender e de aprender a pensar, assim como levar o
aluno a obter o controle consciente do aprendido, retê-lo e saber aplicá-lo noutro
contexto. A orientação e a diretividade são fundamentais para que o material
instrucional realize o objetivo que deve caracterizá-lo.
Um ambiente de
ensino-aprendizagem interacionista possibilita (Primo):
·
as pessoas, rever e modificar idéias,
sentimentos e valores quando for preciso, facilitando sobremaneira o processo de
organização e construção da aprendizagem;
·
uma sintonia mútua, entre professores
e aluno, permeada pelo espírito de cooperação e responsabilidade;
·
ao professor, atuar como um
"desequilibrador" do ambiente de aprendizado, provocando conflitos e situações
problemáticas visando estimular o aluno a questionar sua ação;
·
ao professor, agir também como um
"regulador", mediando as atividades realizadas, as inter-relações dos alunos,
especialmente dando ênfase aos procedimentos democráticos e lúdicos; e
·
ao aluno, superar quaisquer posturas
de receptores passivos de informações e, atuar como construtor de conhecimento, passando
a ser agente de busca, seleção e assimilação das informações.
Um ambiente de
ensino-aprendizado apoiado pelo uso do computador traz diversos desafios e diferentes
possibilidades de produções individuais e/ou grupais, resgatando o lúdico no aprender
com prazer, invadindo e alterando a rotina da aula. Assim, o professor se descobre fazendo
e pensando diferente ao ter que lidar com o desconhecido, o novo. Ele também, se percebe
aprendendo e conhecendo de um outro jeito, com espaço para criatividade e autoria.
Aprende fazendo e refletindo sobre sua ação, o que propicia uma renovação constante.
Estes espaços de
convivências, apoiados pelo uso do computador, levam o aluno a observar o seu próprio
desenvolvimento na apropriação da máquina, enfatizando-se o processo e não o produto.
Assim, ele é desafiado a criar e a experimentar novas abordagens para estimular a
construção do seu próprio conhecimento. A construção do conhecimento ocorre quando o
aluno busca novas informações para complementar ou alterar o que já se possui e, com
isso, ele estará criando suas próprias soluções, pensando e aprendendo sobre como
buscar e usar essas novas informações através da utilização da tecnologia.
O computador dever ser
utilizado como um instrumento para catalisar e auxiliar a transformação da escola, mesmo
diante dos desafios que apresenta. Essa solução em longo prazo é mais promissora e mais
inteligente do que usá-lo para informatizar o processo de ensino. Mas uma mudança na
educação implica em uma alteração de postura, e requer o repensar dos processos
educacionais.
A criatividade é uma
qualidade inerente e ao mesmo tempo resultado do funcionamento intelectual. Então com
base em Tecnologia e Criatividade qual seria a resposta dada à seguinte pergunta:
é possível utilizarmos a tecnologia com a criatividade necessária e inerente ao
processo de aprendizagem?
Toda a ação criativa
implica uma aprendizagem, porque produz algo novo e original. Aprendizagem no sentido de
se tornar um "outro" em si mesmo, alterando posição, modo de pensar, e outros.
Segundo Maturana (1990) "a aprendizagem é um processo de aquisição, um processo
de adaptação, de acomodação a uma circunstância diferente daquela em que o organismo
a pessoa, a criança - se encontrava originalmente." Maturana afirma também
que "este fenômeno de existir em interações recorrentes com uma circunstância nas
quais se conservam a organização e a congruência com a circunstância, é o que se
chama de deriva". Quer dizer, para não afundar nessa deriva é
necessário que o viajante conserve sua relação de flutuar, de perceber as
diferenças e dificuldades do caminho e agir para que a congruência não se perca.
Então, para que ele exerça com continuidade e sem esforço seu papel de flutuador, é
fundamental uma mudança estrutural contigente à sequência de interações, sem esquecer
que o organismo e a circuntância mudam juntos. Pode-se continuar nessa linha de
pensamento para que se defina o quão fundamental é o pensamento criativo na resultante
aprendizagem e consequentemente na vida do ser humano!
O ser humano e a criatividade
nasceram juntos. Se viver é manter a congruência, então ser criativo é fundamental
para não morrer.
Definindo
Criatividade:
Um estudo da criatividade, do
ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, justifica-se pela sua importância
educacional, principalmente com a utilização das tecnologias que estão redefinindo não
somente os papéis dos principais atores da educação: o educador e o educando, como
estão redefinindo também qual o objetivo de educar, quais seriam as principais
habilidades a serem transmitidas, o que se esperar do sujeito e do coletivo inseridos
nesse processo.
Mas o que é criatividade?
O que interfere na
manifestação da criatividade?
Existem seres "não
criativos" ou "mais criativos"?
Entender o que é
criatividade , como ela funciona no indivíduo se relacionando com o coletivo e no
coletivo se relacionando com o indivíduo, pode contribuir para a melhoria da qualidade da
educação e principalmente, para o desenvolvimento de métodos adequados ao trabalho
criativo em cada disciplina.
Humberto Maturana (1991:p.
77) define a criatividade como um presente da sociedade. Pois cada vez que essa mesma
sociedade pensa que o ser humano fez alguma coisa nova, e valiosa, que surge da
espontaneidade do viver, ela o define como um agente criativo.
O fascínio pela
inventividade humana acompanha a história da humanidade desde a Antiguidade. No entanto,
muitas dúvidas ainda pairam sobre essa fabulosa possibilidade humana, sendo que se faz
necessário a ampliação das investigações científicas sobre ela. A terminologia para
definí-la e para determinar o que é criatividade, o que são o processo e o produto
criativo, é muitas vezes vaga e contraditória. Curiosidade, imaginação, descoberta,
inovação , são alguns dos termos utilizados para definir a criatividade. Os antigos
filósofos relacionavam a criatividade à inspiração divina, portando, fora do controle
humano. Outras vezes ela era relacionada com à loucura, à paixão, à intuição
(Taylor, 1993).
Platão chamou os poetas de
luz alada e pensador sagrado e afirmava que, ao criar, o artista
estava sob o domínio de um poder superior. Grandes artistas da história foram chamados
de loucos ou demoníacos pela forma especial como utilizavam sua
criatividade. Albert Einstein, pode ser citado como um exemplo atual pois, foi um homem
que soube explorar sua criatividade brilhantemente e cuja principal representação é a
engraçada figura de um senhor de revoltos cabelos brancos, língua prá fora e expressão
transloucada.
Descartes, no século XVII,
considerou a mente como uma entidade à parte, da qual fluíam a linguagem, o raciocínio
e a criatividade, sendo que essa seria um dom especial que atingia poucos sobre a face da
terra. Em outras épocas, como no século XIX, a criatividade era vista como resultado das
paixões românticas, vinda do inconsciente ou , nas teorias evolucionistas, fruto da
heriditariedade. Talvez, esse breve histórico explique um pouco a crença, erroneamente
ainda aceita por muitos, que criatividade é uma característica de poucos artistas
privilegiados ou de pessoas de QI elevados, não sendo acessível a todo e qualquer ser
humano. Esta aí um equívoco que todo educador deve combater arduamente.
Entender que a criatividade
pode ser vista como fruto da necessidade natural de impor sentido, organização e
singularidade às experiências vividas que todos sentem e consequentemente poderão
explorar, é fundamental como auxílio ao processo de formação de seres originais e
capazes de utilizar sua mente de uma forma sempre inovadora.
A
importância da criatividade nas abordagens cognitivo-educacionais: Discutindo espaços de
convivências criativos.
Torrance (1974), um estudioso
da área de educação que investiu na pesquisa e no desenvolvimento da criatividade,
definiu o pensamento criativo como o processo de perceber lacunas ou elementos
faltantes perturbadores; formar idéias ou hipóteses a respeito deles; testar essas
hipóteses; e comunicar os resultados, possivelmente modificando e retestando as
hipóteses. Partindo dessa definição se pode concluir que um ambiente de
convivência educacional, em qualquer espaço que utilize, deve possibilitar ao aprendiz
inicialmente reconhecer ou se conscientizar do problema. Para isso deve fornecer ou
promover aspectos de informação básica, identificação das várias facetas do
problema, ampliação e redefinição, identificação de subproblemas, distinção de
prioridades para a futura solução. Para promover isso é fundamental que esse espaço
reconheça e assimile todos os indivíduos (aprendizes) que compõe o coletivo (turma
específica), aceitando e estimulando as diferenças e sabendo colher os frutos do produto
do conhecimento construído coletivamente, mas a partir das necessidades e criações
individuais. Nessa construção, chega-se a etapa de formulação de hipóteses sobre o
problemas. Para isso é fundamental que o espaço de convivência seja livre de censuras,
permitindo a estimulação e o não-bloqueio das idéias. Uma outra etapa será o espaço
onde testam-se as idéias e hipóteses formuladas, que, após esse teste, ou serão
reformuladas ou serão comunicadas como resultados. Esse é um momento de grande riqueza
nesse caminhar educacional pois agora os envolvidos no processo podem verificar o impacto
de sua criação.
Maturana afirma (1983: p.
151-152): "Educar é conviver. O educando se transforma na convivência com o
educador. O educador ou a educadora é aquele ou aquela que adota a tarefa de configurar
um espaco de convivência aonde outros se transformam com ele ou com ela... é aquele ou
aquela que aceita o convite de outro para
conviver transitoriamente com ele ou ela em um certo espaço de existencia no qual esta
pessoa tem mais habilidade de ação e reflexão. Para que isto aconteça, o educando e o
educador ou educadora, devem concordar aceder
o espaço onde se aceitem mutuamente como legítimos outros na convivência. A tarefa do
professor ou professora é evocar um escutar, de modo que o aluno possa aceitar ou
desprezar o que ele ou ela disse conscientemente de acordo com sua compreenssão. Quando
isto acontece, o aluno adquire instrumentos de ação e reflexão que pode usar
conscientemente em qualquer domínio".
Criatividade
e o Conhecimento:
Ainda analisando o ponto de
vista de Maturana (1983), conhecer é ter uma conduta efetiva no âmbito específico de
uma pergunta. Essa conduta efetiva tem que estar de acordo com a pergunta feita, mas na
maioria das vezes, na escola quem faz a pergunta fecha de mais as possibilidades de
resposta, segundo seu critério pessoal, e nao permite ao sujeito usar a sua criatividade
para pensar noutras respostas possíveis, afetando assim o processo criativo e à
aprendizagem desses. Exemplo extraído das observações de Maturana (1983: p 85).
Tecnologia
e Criatividade:
Com base no que foi
apresentado até agora já se pode responder a questão feita no início deste trabalho:
É possível utilizarmos a tecnologia com a criatividade necessária e inerente ao
processo de aprendizagem? Não só é possível como essencial, pois não existe
aprendizagem sem a construção de algo novo, então só se pode utilizar a tecnologia
como ferramenta de ensino se for possível entender que ela deve promover as condições
necessárias para o aprendiz se relacionar com o mundo externo, sendo essa relação a
principal motivação para a criatividade. A percepção criativa que a tecnologia promove
através da utilização de várias mídias e espaços virtuais simultâneos aumentam o
interesse do aprendiz, incitando sua mente a soluções múltiplas e criativas.
Com base nos trabalhos de
Maturana (1991) é possível afirmar que o funcionamento do organismo que cria através de
seu poder de interagir e modificar-se, ao mesmo tempo, modifica o ambiente em que vive.
É uma tarefa complexa tentar
procurar os meios para que ocorra um aprendizado significativo nos pois muitas variaáeis
irão influenciar de forma decisiva no processo de aprendizagem: desejos do aluno, bagagem
cultural, a experiência anterior com o conteúdo e com o seu próprio processo de
aprendizagem, o relacionamento os professores, colegas, tecnologia, entre outras
variáveis; como também os elementos que servirão de sustento ao processo de
aprendizagem, isto é, a tecnologia de informação e de comunicação. A interelaçao
entre essas variáveis é muito importante, visto que a aprendizagem é um fenómeno
biológico que é afectado dependendo desta relação.
A relação de um aluno com
um conteúdo pelo qual não sente nenhuma motivação, provavelmente pode, por exemplo,
desencadear mudanças na sua estrutura levando-o a uma desintegração como estudante. É
necessário escutar os alunos, tentar fazer uma leitura de seus desejos, assim
como tambem é muito importante tentar procurar formas criativas de incentivar a estudar
conteúdos que no começo podem parecer pouco motivantes e que são importantes de se
aprender. Para o ser vivo, nesse caso o aluno, todas as suas interaçoes são fundamentais
porque na sua sequência aparece selecionado o curso da suas estruturas num processo que,
por ser acumulativo, ao se dar cada mudança, como transformação do estado anterior, tem
um carater histórico e irreversível (Maturana, 1983).
Nenhum ser vivo se encontra
onde se encontra por acaso, ele está onde está como resultado de uma história de
interaçoes (Maturana, 1983).
Educar tecnologicamente as
futuras gerações para o avanço tecnológico não se restringe apenas em ensinar a
utilizar o mais moderno recurso de hardware ou de software, mas em perguntar-se o que, o
como e o por que da tecnologia?
A tecnologia não deve e não
pode ser considerada apenas uma novidade a mais no ensino, nem deve ser encarada como uma
panacéia que resolverá os problemas educacionais, mas poderá ser um novo caminho no
processo de apropriação de conhecimentos, para transformá-los. Pode-se dizer que a
interação com os computadores, games, livros, Internet, TV, vídeo, representam a
possibilidade de alteração das estruturas cognitivas do indivíduo, gerando um
desequilíbrio que instaura uma nova maneira de pensar.
Para Pierre Lévy (1993), a
escola deve dedicar-se não apenas a ouvir o seu meio ambiente, mas também ouvir a si
própria e à sua diversidade interna, tornando-se, no dizer de Maturana, um espaço de
convivência, no qual professores e alunos possam conviver de uma certa maneira
particular.
Maturana (2000) fala em um
ambiente democrático e transparente, segundo sua fala: "Existimos num futuro
cambiante. Por isso falo na educacão como uma transformação da convivência. Esta é a
nossa verdadeira tarefa frente à tecnologia: fazê-la transparente para criar um projeto
de convivência democrático."
Um
futuro cambiante, onde o ser humano vai atuando e transformando o ambiente, onde a
aprendizagem é cambiante, onde os seres humanos vão se relacionando e transformando suas
estruturas.
Ao
comparar o não transparente como o sujo ou maciço, percebe-se, a verdadeira tarefa
frente à tecnologia, é utilizando-a de uma forma limpa, para isso, se colocada alguma
tecnologia entre professores e alunos, ela tem que ser transparente, ambos têm de
conseguir enxergar através dela, ela deve ser flexivel e não maciça como um muro, uma
barreira, afinal, não se quer barreiras entre alunos e professores.
Deve-se então, ser criado um
projeto democrático de convivência para todos, alunos e professores.
Deste ponto em diante, serão
feitas afirmações e experiências vivenciadas pelos autores desse texto, com base nos
recursos de comunicação utilizados no curso de Especialização a Distância, em
Informática na Educação, ministrado pela Univesidade Federal do Rio Grande do Sul.
Levando em consideração os aspectos teóricos de Humberto Maturana estudados na
disciplina de Ecologia Cognitiva ministrada pela professora Cleci Maraschin.
Foram utilizados vários
recursos durante o curso destinados para a comunicação, síncrona e assíncrona, entre
os alunos e professores, podendo citar: correio eletrônico, lista de discussão,
equitext, Learning Space, chats, vídeo conferência, dentre outros.
Correio Eletrônico: um dos
recursos mais utilizados durante o curso. Por meio dele foi possível estabelecer uma
comunicação assíncrona entre a comunidade educativa, alunos e professores. Pela
experiência vivenciada, o correio eletrônico se mostrou uma ferramenta ágil e segura. A
abrangência e rapidez para o feedback dos assuntos tratados, permitiu
estabelecer uma rede de conversaçoes e convívio com os partcipantes. Através deste
recurso os professores puderam orientar individualmente e sem limitação de tempo ou de
espaço.
Lista de discussão: os
professores trabalharam listas vinculadas às suas disciplinas, onde a comunidade discente
teve acesso. No começo o grupo não soube utilizar corretamente a lista. Muitas mensagens
eram enviadas para todo o grupo, mensagens que eram particulares ou mesmo direcionadas à
determinadas pessoas e de pouca importância para os demais membros. Esse fato
sobrecarregou diariamente as caixas de e-mails. A utilização da lista foi rearranjada e
o grupo passou então a utilizar melhor esse recurso. Entre outros usos, os assuntos
tratados eram aprofundados, reuniões foram agendades e muitas dúvidas esclarecidas.
Learning Space (LS): é uma
ferramenta voltada para o aprendizado colaborativo, onde pode ser observado a ocorrência
dos progressos de alunos e professores no processo de ensino-aprendizagem. A forma como
esta ferramenta foi utilizada, na maioria das disciplinas, permitiu que cada aluno, frente
aos temas em estudo, passasse a ser responsável pelo seu individual dentro de cada grupo.
Isso com liberdade para a escolha do momento de estudar e dentro do estilo de aprendizagem
individual. Essa ferramenta possui vários locais que permitem ao aluno participar
ativamente da disciplina. No entanto, o que a maioria do alunos sentiram falta, durante a
aula presencial, foi de orientação técnica para o seu uso, e das possibilidades de
recurso para o seu melhor aproveitamento. Por exemplo, como participar através de
comentários em uma sequência de discussões já existentes sem a criação de uma nova.
O Learning Space no entanto
foi perdendo a empatia com os alunos, no decorrer do curso. O principal motivo percebido
foi sua lentidão pois dependendo da conexão e do dia era bastante trabalhoso e
desgastante sua utilização. Essa demora em acessar os numerosos links atrapalhou
bastante o uso do LS como espaço de convivência onde se pudesse aprodundar nos debates
propostos. As listas de discussão e os webfólios pessoais e coletivos se mostraram mais
eficazes neste sentido.
Equitext: permitiu a
elaboração de textos a partir dos grupos de estudo, de forma colaborativa e cooperativa.
Inclusive, este trabalho foi escrito com a ajuda colaborativa e cooperativa dos diversos
autores. Os recursos de alterar, incluir ou excluir parágrafos no corpo do trabalho,
foram de grande utilidade. Com estes recursos, todos os participantes puderam colaborar e
cooperar na redação do texto, ao mesmo tempo. O equitext por identificar o usuário e a
data de participação do mesmo, propicia aos participantes uma responsabilidade que os
impulsiona a construir o texto conjuntamente.
Chat: os encontros síncronos
permitidos pelo chat, também chamados de salas de bate-papo, foram fundamentais para os
trabalhos de grupo. Através dos chats foram sanadas dúvidas, apresentadas discussões,
soluções, dicas, diálogos e realizadas as estruturações da maioria dos trabalhos. As
aulas também propiciaram a cada aluno o crescimento como pessoa e como estudante. O chat
possibilitou um sentimento de proximidade e intimidade similar ao de uma sala de aula
convencional; isso porque possibilitou ao aluno, a todo momento, se expressar. E, essas
expressões foram salvas no chat; e não se perderam como uma fala que fica no ar sem
poder ser ouvida, e que desaparece sem surtir nenhum efeito. No entanto, os chats, com um
grande número de participantes, tem um aproveitamento limitado, pois dificulta a
compreensão dos fatos ou mesmo a participação de todos nas discussões.
Vídeoconferência: recurso
utilizado com menor frequência, comparado às demais ferramentas de comunicação. Não
houve aulas utilizando esse recurso, mas foram feitos testes, durante o sementre, assim
como várias reuniões entre os participantes de cada grupo de estudo. Mesmo que ainda
ocorram algumas falhas, humanas ou mesmo técnicas, na coordenaçao do microfone, no
compartilhamento de aplicativos ou na visualização do vídeo de cada participante, a
videoconferência proporcionou ao grupo bons resultados, além de ser um excelente recurso
para o ensino a distância. A videoconferência propicia ao aluno, do ensino a distância,
um contato mais face-a-face; permitindo o aluno ver a face das pessoas do grupo ou mesmo
ouvir suas vozes.
Com base nas experiências
vividas através desses recursos de comunicação ao longo desses meses, os integrantes do
presente trabalho puderam:
·
criar espaços de conhecimentos,
conforme assinalado por Maturana (1983) - nesses espaços os alunos conseguem dominar
modos de pensar, aprender habilidades reflexivas, ou seja, aprender a se movimentar nos
diversos espaços transformando os mesmos, em pontos de partida para uma possível
reflexão.
·
criar espaços de convivência, que
segundo Maturana possibilita a cada um dos integrantes deste espaço a sua própria
transformação. E, onde todos foram aceitos mutuamente.
Mesmo que a relação entre o
professor e o aluno, entre um aluno e outro, tenha se dado a distância, foi sentida uma
certa proximidade e intimidade, isso como se todos estivessem numa mesma sala de aula, ou
seja, num mesmo espaço físico. Foi possível formar comunidades virtuais de estudo que
possibilitaram o estabelecimento de espaços de criação e transferência de conhecimento
entre os participantes.
O computador representa uma
revolução, tanto no processo de trabalho como na organização da informação. Por sua
vez, as tecnologias de comunicação exercem a função de disseminadores de conhecimento,
liberando alunos e professores das limitações de tempo e espaço, enriquecendo o ensino
com recursos de multimídia, interação, simulações, e permitindo o estudo
individualizado.
Contudo, algo que o grupo de
autores considera ser necessário refletir e transformar nesse espaço de convivência,
que foi o Espie, é que a demanda técnica, de manuseio da ferramenta, foi mais valorizada
do que a demanda teórica, a reflexão e o debate; considerando esse aspecto, o curso
Espie ainda não encontrou o necessário equilíbrio entre prática e teoria, ação e
reflexão.
Quanto a criatividade:
A necessidade de elaboração
de planos de aula para todas as disciplinas, que incluam o exercício da busca de
alternativas e de procedimentos diversos, como forma de incentivar a construção
cognitiva e, ao mesmo tempo, a criatividade, decorre do entendimento dos papéis
recíprocos e simultâneos desempenhados pelo processo criativo e pelo processo de
estruturação cognitiva. Nesta busca a tecnologia pode ampliar e redimensionar as várias
possibilidades de interação entre os aprendizes, professores e espaços de convivência.
Quanto as possibilidades da
educação a distância:
É fácil concordar com
Maturana quando ele diz que "a educação a distância corre o risco de fracassar na
medida em que não se reconheça que a relação professor/aluno deve estar aberta a mesma
proximidade e intimidade psíquica que na aula presencial: a educação a distância é
somente possível na biologia do amor a distância. que é a mesma que na
proximidade" (Fenomenología del conocer, p 152).
A distância não envolve
apenas o aspecto físico, mas também alguns outros aspectos como: psicológico, social,
lógico, cultural, econômico, filosófico, entre outros. Assim, toda e qualquer prática
pedagógica, num ambiente de ensino suportado pela Web, dependerá de um planejamento
sistemático para sua implementação e da adoção de concepções teórico-pedagógicas
para tal. Desta forma, as ferramentas que dão suporte ao ensino e à aprendizagem à
distância, que promovem a interatividade, podem ser utilizadas de maneira produtiva,
contribuindo na melhoria do processo de ensino e aprendizagem e, sobretudo na formação
do aluno enquanto sujeito ativo na construção do seu próprio conhecimento.
O ambiente apoiado pelo uso
do computador traz diversos desafios e diferentes possibilidades de produções
individuais e/ou grupais, resgatando o lúdico no aprender com prazer, invadindo e
alterando a rotina de uma sala de aula tradicional. Até o professor se descobre fazendo e
pensando diferente ao ter que lidar com o desconhecido, o novo. Ele também se percebe
aprendendo e conhecendo de um outro jeito, com espaço para criatividade e autoria.
Aprende fazendo e refletindo sobre sua ação, o que lhe propicia uma renovação
constante.
As dificuldades de
utilização destes ambientes de ensino-aprendizado a distância, entre outras, estão
associadas aos conhecimentos ainda em estágio precário tanto a respeito das
características pedagógicas desses meios, quanto das maneiras mais adequadas de
empregá-los. Considera-se que a expressão mais contundente para definir este momento
histórico, a partir do potencial das tecnologias da informação e comunicação, é a
possibilidade da concretização de uma democracia cognitiva permitindo a
construção individual e coletiva de conhecimentos, num espaço e tempo determinados, no
sentido da promoção de todos os homens e mulheres.
CHAVES, Eduardo. Tecnologia na
Educação. www.edutecnet.com.br. Acesso em abril de 2001.
KLOTER, Clara. Criatividade e
conhecimento. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998, 215 p.
LÉVY, Pierre. As tecnologias da
inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: 34, 1993.
LÈVY,
Pierre. O que é virtual. São Paulo: Editora 34, 1996.
MARASCHIN,
Cleci; AXT, Margarete. O Enigma da Tecnologia na Formação Docente.
http://www.c5.cl/ieinvestiga/actas/ribie98/209.html. Acesso em abril de 2001.
MATURANA, Humberto. Fenomenología del
conocer. Revista de Tecnología Educativa,
vol. 8, nº 3/4, 1983.
MATURANA,
Humberto. Uma nova concepção de aprendizagem. Palestra ministrada para
Professores do Ensino Básico, Universidade Católica de Santiago do Chile, 20.07.90.
MATURANA, Humberto. El sentido de
lo humano. Santiago de Chile: Hachette, 1991.
MATURANA, Humberto. Uso da
Tecnologia para Aprender no Contexto da Biologia do conhecer. Palestra ministrada no
RIBIE - Congresso da Rede Ibero-Americana de Informática Educativa, em Viña Del Mar,
dezembro de 2000.
PIAGET,
Jean. Development and learning. Journal of Research in Science Teaching, v. XI,
n.03, 1964.
PIAGET, Jean.
O desenvolvimento do pensamento: equilibração das estruturas cognitivas. Lisboa:
Dom Quixote, 1977.
PIAGET, Jean. A
representação do mundo na criança. Rio de Janeiro : Record, 1983.
PRIMO, Alex Fernando Teixeira. Ferramentas
de interação na web: travestindo o ensino tradicional ou potencializando a
educação através da cooperação?
http://www.pgie.ufrgs.br/~mara/espie/ecologia/fer_int.htm. Acesso em abril de 2001.
PRIMO, Alex Fernando Teixeira &
CASSOL, Márcio Borges Fortes. Explorando o conceito de interatividade:
definições e taxonomias. http://usr.psico.ufrgs.br/~aprimo/pb/pgie.htm. Acesso em abril
de 2001.
PUC-RIO. Tecnologia de Educação a
Distância. http://www.cead.puc-rio.br/tutorial/index.html. Acesso em abril de 2001.
TAYLOR, Calvin W. Criatividade:
Descobrindo e Encorajando. Campinas: Editorial Psy, 1993.
TORRANCE, E. P.; TORRANCE, J.P. Pode-se
ensinar criatividade? São paulo: EPU, 1974.
UFRGS-ESPIE. Versão final do texto
Interatividade. http://penta2.ufrgs.br/edu/espie/interatividade.htm. Acesso em abril
de 2001.
WOODMAN,
Richard W. Creativity as a construct in personality theory. Journal of Creative
Behavior, v. 15, no.1,1981.
GLOSSÁRIO
Este glossário visa abranger alguns dos termos das mais distintas áreas abordados neste texto, com a finalidade de que você possa consultá-lo sempre que se deparar com um termo que lhe cause "estranheza". No entanto, é importante que você sempre o consulte e "duvide" do que está sendo dito. Assim, cada definição dependerá da concepção filosófica de quem o estiver consultando; e, você não precisa aceitar estas definições, o importante é que você pense sobre elas.
Acoplamento Estrutural: Os organismos de espécies semelhantes possuem, basicamente, aparelhos semelhantes para detectar e adaptar-se às perturbações. Como resultado, a história de suas adaptações estruturais podem ser similares. Suas estruturas são "acopladas", por isso é possível a comunicação com outros seres humanos.
Ambiente Assíncrono: caracteriza-se por pessoas que aprendem
na rede em qualquer hora e em qualquer lugar. Não é necessária a participação
simultânea de todos os envolvidos no processo de ensino/ aprendizagem.
Ambiente Síncrono: neste ambiente alunos e professores estabelecem comunicação intermediada por um computador de forma simultânea. Todos estão em contato com a rede ao mesmo tempo.
Aprender: é um fenômeno biológico. È passar do conhecimento empírico para o conhecimento conceitual.
Aprendizado: é provocado por situações - provocadas por um experimentador psicológico.
Aprendizagem: é, antes de tudo, falar da construção de significados. "Uma pessoa aprende um conteúdo quando é capaz de imprimir-lhe um significado".
Aprendizagem a Distância (AD): "Sistema dirigido ou um processo para conectar os aprendizes aos recursos remotos. AD pode ser um meio preliminar ou suplementar de aprendizagem"(PUC-RIO).
Autopoiese: originou-se a partir de estudos da biologia. É usado para definir os seres vivos como sistemas que produzem continuamente a si mesmos. Significa autoprodução e pode ser considerado o centro da dinâmica constitutiva dos seres vivos.
Cognitivismo: conhecitivo, intelectivo.
Comunicação: informação, aviso, transmissão. É um processo pelo qual idéias e sentimentos se transmitem de indivíduo para indivíduo, tornando possível a interação social. Comunicação assíncrona é a transmissão de dados entre dispositivos que não é sincronizada com um relógio, mas sim efetuada quando os dados estão prontos.
Congruência: harmonia de uma coisa ou fato com o fim a que se propõe; coerência.
Conhecimento: para Humberto Maturana vida é conhecimento pois para ele o conhecimento é algo biológico; pertencendo a qualquer forma de vida, não provém de fora, realizando-se pela forma através da qual o indivíduo organiza suas relações como externo. "O conhecimento é compreendido como um processo de auto-organização do indivíduo, isto é, ele se realiza pela e nas relações que o indivíduo constrói com o seu entorno."
Convivência: ato ou efeito de
conviver; familiaridade;
coexistência.
Cooperação: Piaget define cooperação como coordenação de pontos de vista e como um processo criador de realidades novas, não apenas simples troca entre indivíduos desenvolvidos.
Criatividade: Várias definicições do que é a criatividade foram citadas no corpo do artigo. Destacamos aqui a de Torrance, um estudioso da área de educação que investiu na pesquisa e no desenvolvimento da criatividade e que definiu o pensamento criativo como o processo de perceber lacunas ou elementos faltantes perturbadores; formar idéias ou hipóteses a respeito deles; testar essas hipóteses; e comunicar os resultados, possivelmente modificando e retestando as hipóteses. Outra forma de entender a criatividade é analisando os diferentes elementos que constituem o conceito e que, na literatura, aparecem como a personalidade de quem cria, o processo de criar e o seu resultado: o produto.
Criatividade:
Segundo Maturana: "Creo que es um regalo de la comunidad. Cada vez que la comunidad
piensa que uno hace algo novedoso , valioso, que en uno surge en la espontaneidade del
vivir, le dice a uno que es creativo."
Democracia: É um modo de convivência no qual todos os assuntos de uma comunidade são públicos, isto é, estão ao alcance para o olhar, a reflexão e a ação, de todos os cidadãos. Como sistema público, a democracia é um sistema no qual as responsabilidades administrativas do pais são designadas de maneira temporal para evitar a apropriação dos assuntos da comunidade por nenhum indivíduo. Ou grupo de indivíduos.
Ecologia Cognitiva: para Cleci Maraschin "é um espaço de agenciamentos, de pautas interativas, de relações constitutivas, no qual se definem e redefinem as possibilidades cognitivas individuais, institucionais e técnicas".
Educar: ensinar, instruir, domesticar, adestrar. Para Humberto Maturana educar é "configurar um espaço de convivência desejável para o outro, de forma que o educador e o outro possam fluir no conviver de uma certa maneira particular".
Educação a Distância (EAD): "Educação realizada através de mídia eletrônica, utilizando satélite, vídeo, áudio-gráfico, computador, multimídia etc"(PUC-RIO).
Epistemologia: teoria ou ciência da origem, natureza e limites do conhecimento.
Interatividade: possibilidade de que cada pessoa seja um sujeito interatuante ativo e não objeto passivo do fluxo de informação.
Internet: o nome Internet originou-se a partir da palavra internetworking (ligação entre redes). Embora seja normalmente pensada como uma rede, a Internet, na verdade é o conjunto de todas as redes. Consiste no conjunto de meios físicos e programas utilizados para o transporte da informação.
Realidade Virtual: uma realidade que se contrapõe à realidade, atual; é uma realidade potencial. (Lévy, 1996) " o virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal. A árvore está virtualmente na semente. Em termos rigorosamente filosóficos o virtual não se opõe ao real, mas ao atual: atualidade e virtualidade são apenas suas maneiras de ser diferentes."
Rede: é considerada uma grande biblioteca digital que, além de compartilhar fontes de informações, pode preservar e organizar idéias ou trabalhos de diversas áreas do conhecimento, guardando-os e tornando-os acessíveis ao público.
Revolução Digital: a possibilidade de transformar todo tipo de informação (dos textos até a voz, sons e imagens, fixas ou em movimento) em números (dígitos), o que permite elaborar, acumular, comunicar e utilizar qualquer tipo de informação. (Santomé, 1998).
Tecnologia: Para Maturana e Varela, os seres vivos são máquinas moleculares que mantém uma organização peculiar (autopoiética), propõem que eles são redes de relações de produção de componentes nas quais os componentes produzem de novo o sistema que os produziu e delimitam uma borda que separa o sistema do meio onde existe. Linguagem peculiar a um ramo determinado do conhecimento, teórico ou prático.
Tecnologia da Comunicação: é a denominação geral dada às
máquinas que permitem a transmissão de idéias e sentimentos de indivíduo para
indivíduo, tornando possível a interação entre estes indivíduos.
Tecnologia da Informação: A informações compartilhadas caracterizam verdadeiros atos de linguagem, pelas interações decorrentes.
Bibliografia:
CHAVES, Eduardo. Tecnologia na
Educação. www.edutecnet.com.br. Acesso em abril de 2001.
KLOTER, Clara. Criatividade e
conhecimento. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998, 215 p.
LÉVY, Pierre. As tecnologias da
inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: 34, 1993.
LÈVY,
Pierre. O que é virtual. São Paulo: Editora 34, 1996.
MARASCHIN,
Cleci; AXT, Margarete. O Enigma da Tecnologia na Formação Docente.
http://www.c5.cl/ieinvestiga/actas/ribie98/209.html. Acesso em abril de 2001.
MATURANA, Humberto. Fenomenología del
conocer. Revista de Tecnología Educativa,
vol. 8, nº 3/4, 1983.
MATURANA,
Humberto. Uma nova concepção de aprendizagem. Palestra ministrada para
Professores do Ensino Básico, Universidade Católica de Santiago do Chile, 20.07.90.
MATURANA, Humberto. El sentido de
lo humano. Santiago de Chile: Hachette, 1991.
MATURANA, Humberto. Uso da
Tecnologia para Aprender no Contexto da Biologia do conhecer. Palestra ministrada no
RIBIE - Congresso da Rede Ibero-Americana de Informática Educativa, em Viña Del Mar,
dezembro de 2000.
PIAGET,
Jean. Development and learning. Journal of Research in Science Teaching, v. XI,
n.03, 1964.
PIAGET, Jean.
O desenvolvimento do pensamento: equilibração das estruturas cognitivas. Lisboa:
Dom Quixote, 1977.
PIAGET, Jean. A
representação do mundo na criança. Rio de Janeiro : Record, 1983.
PRIMO, Alex Fernando Teixeira. Ferramentas
de interação na web: travestindo o ensino tradicional ou potencializando a
educação através da cooperação?
http://www.pgie.ufrgs.br/~mara/espie/ecologia/fer_int.htm. Acesso em abril de 2001.
PRIMO, Alex Fernando Teixeira &
CASSOL, Márcio Borges Fortes. Explorando o conceito de interatividade:
definições e taxonomias. http://usr.psico.ufrgs.br/~aprimo/pb/pgie.htm. Acesso em abril
de 2001.
PUC-RIO. Tecnologia de Educação a
Distância. http://www.cead.puc-rio.br/tutorial/index.html. Acesso em abril de 2001.
TAYLOR, Calvin W. Criatividade:
Descobrindo e Encorajando. Campinas: Editorial Psy, 1993.
TORRANCE, E. P.; TORRANCE, J.P. Pode-se
ensinar criatividade? São paulo: EPU, 1974.
UFRGS-ESPIE. Versão final do texto
Interatividade. http://penta2.ufrgs.br/edu/espie/interatividade.htm. Acesso em abril
de 2001.
WOODMAN,
Richard W. Creativity as a construct in personality theory. Journal of Creative
Behavior, v. 15, no.1,1981.
[1] Professora de Educação Pre-escolar: atualmente bolsista DTI do CNPq no projeto ARCA - Ambiente de realidade Virtual Cooperativo de Aprendizagem. rubecong@zaz.com.br
[2] Professora de Estudos Sociais; atualmente membro do comitê de Informática e administradora de rede da Smed-Secretaria Municipal de Educação. beasilva@portoweb.com.br.
[3] Sanitarista, atriz, membro da equipe da Escola de Saúde Pública do Paraná. raquelrizzo@bsi.com.br.
[4] Pesquisador DTI/CNPq do PGIE/UFRGS, Bacharel em Ciência da Computação (UNISC) keller@pgie.ufrgs.br
[5] Mestre em Processamento da Informação(UFU), professora do curso de Ciência da Computação(Unit-Centro Universitário do Triângulo, Uberlândia-MG). silvia@uber.com.br.